Por Redação | Portal Archa | 20 de maio de 2025
Com promessas de “valorização” e “excelência na prestação educacional”, a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo publicou ontem (19), no Diário Oficial, a Resolução SEDUC nº 83/2025, que passa a regular a Avaliação de Desempenho dos integrantes do Quadro do Magistério (QM) em todas as escolas estaduais — sejam elas de tempo parcial ou de ensino integral.
A medida, que entra em vigor ainda neste ano letivo, prevê que todos os professores, efetivos ou contratados, sejam avaliados em dois momentos: ao final do primeiro semestre (avaliação diagnóstica, com fins formativos) e ao fim do ano (avaliação somativa, com possível realocação ou exclusão do programa de ensino integral – PEI). A avaliação será feita por alunos, pares e gestores, sem previsão de autoavaliação — e com critérios que incluem até mesmo “liderança”, “clima organizacional” e “comunicação clara”.
Entre metas e medo: o adoecimento silencioso
Na prática, a Resolução formaliza o que muitos educadores já sentem na pele: a ampliação de uma cultura de vigilância e punição, travestida de meritocracia. “Estamos sendo cobrados a cumprir metas inatingíveis, corrigir erros grotescos dos materiais digitais, seguir à risca o uso de plataformas que não funcionam, e ainda sorrir no feedback. Agora, seremos julgados por tudo isso pelos próprios alunos — que também sofrem com essa lógica industrial de ensino”, comenta uma professora do ensino fundamental, que prefere não se identificar.
Relatos como esse se acumulam em grupos docentes desde a divulgação da nova norma. Uma das críticas mais frequentes é a precariedade dos materiais pedagógicos digitais entregues pela própria SEDUC, repletos de erros, com conteúdo incongruente entre as versões impressa e online — e mesmo assim exigidos sob risco de sanção. “As direções estão apavoradas com o risco de perder o cargo. Os professores estão sufocados. Isso não é política educacional, é um estado de exceção mascarado por relatórios de PowerPoint”, completa.
Gestão por metas e a ilusão da excelência
A lógica da gestão por resultados, criticada há décadas por estudiosos da educação, impõe um modelo empresarial de avaliação, no qual o “bom professor” é aquele que se adequa ao sistema, e não aquele que compreende e responde à complexidade humana da sala de aula. A Resolução prevê inclusive a realocação compulsória de professores mal avaliados — inclusive para fora da unidade escolar ou do próprio PEI. Aos que não têm para onde ir, restará a condição de “adido”, um limbo burocrático.
A mídia tradicional tratou a medida como uma novidade neutra. A Folha de S.Paulo destacou que “todos os professores serão avaliados” a partir de 2025, enquanto a Jovem Pan exaltou o fato de que “a avaliação visa garantir qualidade no ensino”. Mas os bastidores contam outra história: professores adoecidos, pressionados a produzir resultados em um ambiente hostil, com escassez de recursos e pouco diálogo.
Avaliação sem escuta: para quem serve essa régua?
A ausência de autoavaliação docente, prevista na nova norma, evidencia a falta de confiança institucional nos profissionais. Mais grave ainda é que o feedback dos alunos será utilizado sem qualquer mediação formativa crítica — como se a mera opinião, coletada por formulários eletrônicos, fosse suficiente para mensurar o trabalho pedagógico em contextos de vulnerabilidade social extrema.
Além disso, o silêncio da Resolução sobre os critérios de contexto e equidade — como turmas multisseriadas, estruturas físicas precárias ou atuação em territórios de risco — reforça a ideia de uma avaliação descolada da realidade, onde o docente é medido por uma régua homogênea e injusta.
A quem interessa esse controle?
Num ano em que se discute abertamente a privatização de áreas estratégicas da administração pública, como a educação e o saneamento, a Resolução 83/2025 parece pavimentar o terreno para uma terceirização pedagógica silenciosa, onde professores autônomos e críticos são substituídos por perfis adaptáveis, alinhados e obedientes.
Enquanto isso, cresce o número de educadores exaustos, desmotivados e afastados por questões de saúde mental. “Estão formando robôs”, resumiu um docente da capital.
A crítica que emerge não é contra a avaliação em si — mas contra um modelo avaliativo punitivo, descontextualizado e vertical, que transforma a escola em campo de adestramento de metas
