TCE-SP cobra Prefeitura de Rio Claro sobre contrato de monitores considerado irregular

Licitação de R$ 9 milhões e aditivos que elevaram contrato a R$ 13 milhões são apontados como burla ao concurso público e precarização da educação municipal

O Tribunal de Contas do Estado de São Paulo (TCE-SP) reiterou a notificação à Prefeitura de Rio Claro em processo que investiga irregularidades na contratação de monitores de alunos por meio da empresa MV Serviços Ltda.. O despacho, assinado em 28 de agosto pelo conselheiro Maxwell Borges de Moura Vieira, determinou o envio de notificação postal após a ausência de manifestação da administração municipal. O Executivo tem 15 dias para apresentar defesa.

O contrato original, de R$ 9 milhões, foi assinado em 18 de fevereiro de 2022, e passou por aditivos que ampliaram o número de profissionais e autorizaram reajustes, chegando a R$ 13,1 milhões anuais em 2025.

Documento informando a notificação da Prefeitura de Rio Claro referente ao contrato com a MV Serviços Ltda., detalhando irregularidades e prazos para manifestação.
Notificação do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo em relação ao contrato de monitoria educacional na Prefeitura de Rio Claro.

Julgamento anterior: irregularidade reconhecida

Em dezembro de 2024, a 2ª Câmara do TCE-SP já havia julgado irregulares a licitação (Pregão Presencial nº 02/2022), o contrato e os termos aditivos. O voto revisor da conselheira Cristiana de Castro Moraes destacou que as funções atribuídas aos monitores eram de natureza permanente e essencial, equivalentes às de agentes escolares e educacionais previstos no quadro de servidores do município. Por isso, deveriam ser providas por concurso público, e não por terceirização.

A fiscalização apontou ainda que:

  • os monitores atuavam dentro da sala de aula, apoiando diretamente professores, em atividades pedagógicas e de cuidado, descaracterizando a ideia de serviço “complementar”;
  • o contrato exigiu apenas ensino médio para funções que, segundo a LDB, demandariam formação adequada ao magistério ou áreas correlatas;
  • houve aumento injustificado no número de monitores — de 250 para 320, um acréscimo de 28% do objeto inicial;
  • as prorrogações foram acompanhadas de reajustes sem fundamentação plausível;
  • houve falta de clareza sobre a necessidade dos serviços em meses sem aula (janeiro, julho e dezembro);
  • as notas de empenho foram emitidas após a assinatura do contrato, em desacordo com as normas.

Precarização e desvio de finalidade

Na análise do TCE, a terceirização nesse caso configurou desvio de finalidade e violação ao princípio constitucional do concurso público. A decisão foi categórica: “A terceirização, permitida apenas em situações específicas no setor público, não pode ser utilizada para atividades de natureza permanente que correspondem a funções previstas no quadro de pessoal do município”.

Além da irregularidade jurídica, o Tribunal também apontou ofensa ao princípio da economicidade: ao recorrer a aditivos sucessivos, a Prefeitura gerou custos recorrentes que poderiam ser evitados com a criação de cargos efetivos.

Apesar do julgamento desfavorável e das irregularidades apontadas, a Prefeitura de Rio Claro ainda não apresentou justificativas consistentes ao Tribunal. O despacho de agosto reitera a cobrança e reforça o risco de responsabilização dos gestores envolvidos.

Comentário crítico: em vez de abrir concurso público e valorizar profissionais da educação, a Prefeitura preferiu terceirizar funções essenciais, inflar contratos e desafiar decisões do TCE-SP. O resultado é uma combinação tóxica: precarização do trabalho escolar, insegurança jurídica e gastos milionários. Mais grave que o contrato irregular é o silêncio institucional diante da cobrança do órgão de controle.


📌 Referências:

  • TRIBUNAL DE CONTAS DO ESTADO DE SÃO PAULO. Acórdão TC-012523.989.23-4, 014474.989.23-3 e 014747.989.23-4. 2ª Câmara, 03 dez. 2024.
  • TRIBUNAL DE CONTAS DO ESTADO DE SÃO PAULO. Despacho no processo 00008191.989.25-0. Conselheiro Maxwell Borges de Moura Vieira, 28 ago. 2025.

Imagem: Ilustrativa.

Deixe um comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

search previous next tag category expand menu location phone mail time cart zoom edit close