Redes sociais impulsionam automedicação e criam nova crise silenciosa na saúde pública

Um fenômeno tão cotidiano quanto perigoso tem crescido à sombra da hiperconectividade: a automedicação estimulada pelas redes sociais. É o que revela o estudo A influência das redes sociais na automedicação e no consumo irracional de medicamentos: desafios para a educação em saúde, publicado na Revista Multidisciplinar Integrada – REMI. O trabalho, assinado por Arthur Cariello Marçal de Oliveira Ferreira, Jefferson Aleixo Salustiano, Aline Roepke Loss Correia e Guilherme Moraes Pesente, mostra como plataformas como TikTok, Instagram e YouTube se tornaram, para grande parte da população, verdadeiras “farmácias digitais” — porém sem farmacêutico, sem prescrição e sem qualquer garantia de segurança.

A pesquisa evidencia que vídeos de influenciadores, relatos pessoais e recomendações baseadas em experiências individuais têm funcionado como gatilhos para práticas de autocuidado arriscadas, especialmente entre jovens e pessoas com baixo letramento em saúde. A lógica algorítmica, que favorece conteúdos rápidos, emocionais e altamente compartilháveis, amplifica dicas que prometem alívio imediato para sintomas diversos, desconsiderando riscos como intoxicação, interações medicamentosas, resistência bacteriana e agravamento de doenças não diagnosticadas.

O estudo analisado reforça que a automedicação não é um comportamento isolado, mas resultado de múltiplos fatores: dificuldade de acesso à atenção básica, banalização de medicamentos isentos de prescrição, confiança excessiva em “dicas virais”, repetição de tratamentos antigos sem orientação e a percepção equivocada de que muitas curtidas equivalem a credibilidade científica. Pesquisas citadas no artigo indicam que analgésicos, anti-inflamatórios, antibióticos e psicotrópicos estão entre os medicamentos mais consumidos de forma inadequada — um cenário que se agravou durante a pandemia, quando a circulação de conteúdos enganosos atingiu níveis inéditos.

Os autores destacam que o problema transcende a esfera individual e se torna questão de saúde coletiva: intoxicações, falhas terapêuticas, atrasos em diagnósticos, resistência microbiana e custos hospitalares evitáveis são consequências diretas desse comportamento. A revisão também aponta que mesmo grupos com maior escolaridade, incluindo estudantes universitários e da área da saúde, estão sujeitos à influência da desinformação digital, o que revela a profundidade e a complexidade do fenômeno.

Para enfrentar a crise, o estudo propõe um caminho que passa necessariamente pela educação em saúde na era digital. Isso inclui fortalecer o pensamento crítico da população, promover alfabetização em saúde desde a escola, integrar profissionais de saúde às redes sociais com conteúdo acessível e baseado em evidências, aprimorar a regulação de plataformas digitais e desenvolver campanhas públicas que dialoguem com as linguagens do ambiente online. A presença ativa de agentes de saúde no ecossistema digital, afirmam os autores, pode neutralizar parte do impacto da desinformação e ampliar a segurança no uso de medicamentos.

A revisão conclui que combater a automedicação exige políticas intersetoriais, participação da sociedade e ações permanentes de comunicação pública. No ritmo em que a informação circula hoje, a omissão custa caro: cada vídeo enganoso é capaz de criar novos riscos sanitários, enquanto a educação em saúde permanece como a estratégia mais sólida para proteger a população num ambiente digital marcado pela velocidade, pela viralização e pela falta de filtros confiáveis.


Referência

FERREIRA, Arthur Cariello Marçal de Oliveira; SALUSTIANO, Jefferson Aleixo; CORREIA, Aline Roepke Loss; PESENTE, Guilherme Moraes. A influência das redes sociais na automedicação e no consumo irracional de medicamentos: desafios para a educação em saúde. Revista Multidisciplinar Integrada – REMI, v. 06, 2025.


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