Um trabalho apresentado no 18º Congresso Brasileiro de Assistentes Sociais defende que a efetiva presença de estudantes indígenas e quilombolas no ensino superior brasileiro depende não apenas de políticas de acesso, mas da construção de um projeto acadêmico-político descolonial, capaz de enfrentar o racismo estrutural e epistêmico que ainda organiza as universidades federais. A análise é assinada pela assistente social Janaina da Silva Guerra, da Universidade Federal de Pelotas, e destaca a atuação do Serviço Social como eixo central nesse processo.
O estudo parte da crítica ao modelo eurocêntrico que historicamente orienta a produção do conhecimento no Brasil e sustenta relações de exclusão dentro do espaço universitário. Mesmo após avanços importantes com a implementação das políticas de ação afirmativa, como a Lei de Cotas, a autora argumenta que a permanência de estudantes indígenas e quilombolas segue comprometida por barreiras econômicas, culturais, simbólicas e institucionais que ultrapassam a simples garantia de vagas.
Segundo o trabalho, a universidade brasileira permanece estruturada para atender prioritariamente a uma elite branca, reproduzindo currículos, práticas pedagógicas e critérios de avaliação que deslegitimam saberes originários e tradicionais. Essa lógica, ancorada na colonialidade do poder e do saber, produz sentimentos de não pertencimento, discriminação cotidiana e evasão acadêmica, sobretudo entre estudantes indígenas e quilombolas.
Nesse contexto, a pesquisa destaca o papel do(a) assistente social como agente ético-político fundamental na mediação entre políticas públicas, universidade e sujeitos historicamente subalternizados. Para além da avaliação socioeconômica, o Serviço Social é apresentado como campo profissional comprometido com a denúncia do racismo institucional, a defesa das ações afirmativas e a formulação de políticas de permanência que considerem as dimensões culturais, territoriais e epistêmicas da vida estudantil.
O trabalho enfatiza que políticas de permanência restritas ao auxílio financeiro são insuficientes para enfrentar desigualdades estruturais. A autora defende a construção de estratégias institucionais que promovam acolhimento, escuta qualificada, valorização da diversidade e reconhecimento dos saberes indígenas e quilombolas nos currículos, na pesquisa e na extensão universitária. Nesse processo, o(a) assistente social atua também como articulador(a) de ações educativas, espaços coletivos de decisão e práticas antirracistas no cotidiano acadêmico.
A análise dialoga com autores do pensamento crítico e descolonial para sustentar que o mito da democracia racial e o discurso meritocrático seguem operando como mecanismos de silenciamento e naturalização das desigualdades no ensino superior. Ao invisibilizar as condições materiais e históricas que atravessam a trajetória de estudantes não brancos, essas narrativas reforçam a exclusão sob a aparência de neutralidade institucional.
Ao final, o estudo conclui que a retomada indígena e quilombola nas universidades federais exige uma mudança profunda de perspectiva sobre o papel social da universidade pública. Mais do que incluir novos sujeitos em estruturas excludentes, trata-se de transformar essas estruturas a partir de um projeto descolonial, antirracista e comprometido com a justiça social. Nesse cenário, a atuação crítica do Serviço Social é apontada como indispensável para a construção de uma universidade verdadeiramente democrática e socialmente referenciada.
Referência
GUERRA, Janaina da Silva. Retomada indígena e quilombola no ensino superior e a atuação do(a) assistente social. Trabalho apresentado no 18º Congresso Brasileiro de Assistentes Sociais. Salvador/BA, 2025. Universidade Federal de Pelotas.
