A incorporação da inteligência artificial (IA) na educação básica brasileira avança mais rápido do que a formação docente consegue acompanhar. É o que aponta o artigo “A Inteligência Artificial como estratégia inovadora na educação básica: desafios de um futuro digital para a formação de professores”, publicado em 2026 na Revista Cadernos Cajuína. O estudo analisa como cursos de licenciatura e programas de formação continuada ainda apresentam lacunas significativas para o uso pedagógico, ético e crítico dessas tecnologias nas escolas.
Assinado por Weslley Mageski da Silva, Sebastião Almeida Mota, Romário Domingos Ramos e Eduardo Silva Ferreira Machado, o artigo se baseia em uma revisão bibliográfica qualitativa e comparativa de produções acadêmicas recentes, dialogando com referenciais clássicos da educação crítica e da psicologia histórico-cultural. A análise evidencia que, embora docentes reconheçam o potencial da IA para inovar práticas pedagógicas, seu uso efetivo permanece incipiente, marcado por insegurança, receios éticos e riscos de tecnicização do ensino.
Os autores alertam que a inteligência artificial não pode ser tratada como ferramenta neutra ou meramente instrumental. Amparado no pensamento de Paulo Freire, o estudo sustenta que a adoção acrítica da IA tende a reforçar práticas “bancárias”, automatizadas e despolitizadas, esvaziando a autonomia docente e a agência discente. Nessa perspectiva, a tecnologia só se legitima educativamente quando integrada a um projeto pedagógico orientado por finalidades humanizadoras e emancipatórias.
A pesquisa também mobiliza a teoria de Vygotski para compreender a IA como instrumento cultural mediador da aprendizagem. Segundo os autores, plataformas inteligentes, sistemas adaptativos e ferramentas de linguagem natural podem ampliar a zona de desenvolvimento proximal dos estudantes, desde que operem sob mediação consciente do professor. Sem essa mediação, o risco é a substituição da docência por processos automáticos de feedback e avaliação, aprofundando desigualdades educacionais.
Outro ponto central do artigo é o alinhamento entre a formação docente e marcos normativos nacionais e internacionais. As diretrizes da UNESCO e da Base Nacional Comum para a Formação de Professores são apontadas como fundamentais para orientar o desenvolvimento de competências digitais críticas, com ênfase na ética dos dados, na centralidade da agência humana e na avaliação responsável das respostas geradas por sistemas de IA. Para os autores, a formação inicial precisa incorporar conteúdos de inteligência artificial, letramento em dados e autorregulação da aprendizagem de forma curricularizada e não episódica.
Ao concluir, o estudo defende que a inteligência artificial pode contribuir para práticas pedagógicas mais inclusivas, personalizadas e reflexivas, especialmente quando articulada a metodologias de multiletramentos e processos formativos baseados em evidências. No entanto, reforça que a inovação tecnológica, por si só, não garante transformação educacional. Sem investimento em formação crítica, políticas públicas consistentes e compromisso ético, a IA corre o risco de aprofundar assimetrias já presentes no sistema educacional brasileiro.
Referência
SILVA, Weslley Mageski da; MOTA, Sebastião Almeida; RAMOS, Romário Domingos; MACHADO, Eduardo Silva Ferreira. A Inteligência Artificial como estratégia inovadora na educação básica: desafios de um futuro digital para a formação de professores. Revista Cadernos Cajuína, v. 11, n. 2, 2026. DOI: 10.52641/cadcajv11i2.1926.
