Textos inspirados em séries, filmes, livros e jogos — muitas vezes vistos apenas como passatempo juvenil — estão ganhando espaço no debate educacional. Um artigo publicado no Caderno Intersaberes defende que a fanfiction, prática comum entre crianças e adolescentes na internet, pode ser uma poderosa ferramenta pedagógica para o desenvolvimento do letramento digital e da escrita criativa na educação básica.
Assinado por Anna Laura Rodrigues e Katia Cristina Dambiski Soares, o estudo analisa como os chamados gêneros literários digitais, especialmente as fanfictions, dialogam com os hábitos culturais dos estudantes e podem ser incorporados às práticas escolares. Diferente da literatura tradicional, a fanfic parte de universos narrativos já conhecidos — como Harry Potter, animes ou games — e convida os alunos a reescrever histórias, criar novos personagens e alterar finais, exercitando leitura crítica, autoria e imaginação.
A pesquisa, de caráter qualitativo e bibliográfico, revisou estudos publicados no SciELO entre 2018 e 2023 e dialoga com autores centrais do campo dos letramentos, como Magda Soares, além de pesquisadores da cultura digital e da participação, como Henry Jenkins. Os dados indicam que a escrita de fanfictions favorece o engajamento dos estudantes, sobretudo daqueles que costumam demonstrar pouco interesse pelos gêneros literários clássicos trabalhados na escola.
Outro ponto destacado é que a fanfiction rompe com a ideia do aluno como leitor passivo. Nas plataformas digitais, leitores também comentam, sugerem mudanças e colaboram com os autores, criando uma dinâmica coletiva de produção textual. Segundo o artigo, esse processo estimula competências fundamentais do letramento digital, como interpretação, argumentação, consciência de autoria e uso crítico das tecnologias.
Experiências pedagógicas analisadas pelas autoras mostram que o uso de fanfics em aulas de língua portuguesa e de línguas estrangeiras pode melhorar o desempenho em leitura e escrita, mesmo em contextos com limitações de acesso à internet. Em alguns casos, projetos foram adaptados para atividades presenciais, mantendo o princípio da escrita colaborativa e do diálogo entre textos.
O estudo também chama atenção para um paradoxo: embora muitos alunos desenvolvam habilidades avançadas de leitura e escrita fora da escola, essas práticas costumam ser ignoradas ou desvalorizadas no ambiente escolar. Para as autoras, reconhecer a fanfiction como gênero legítimo é um passo importante para aproximar a escola da cultura digital vivida pelos estudantes e repensar o ensino de literatura em tempos de redes e plataformas.
Ao final, o artigo defende que o letramento digital não se resume ao domínio técnico das tecnologias, mas envolve compreender seus impactos culturais, sociais e educacionais. Nesse cenário, a fanfiction aparece não como ameaça à literatura, mas como uma porta de entrada potente para formar leitores e escritores críticos no século XXI.
Referência
RODRIGUES, Anna Laura; SOARES, Katia Cristina Dambiski. Letramento digital e fanfiction: o uso de gêneros literários digitais no ensino. Caderno Intersaberes, Curitiba, v. 14, n. 54, p. 140–154, 2025. DOI: 10.22169/cadernointer.v14n54.3786.
