Por Caroline Pereira
O escritor, professor e pesquisador Antonio Archangelo lançou o romance Para Nunca Esquecer de Mim, já disponível em formato e-book na plataforma Clube dos Autores. A obra marca a publicação de seu primeiro romance amoroso e apresenta uma proposta estética incomum: o livro foi escrito em diálogo direto com um álbum musical e com a tradição literária inaugurada por Os Sofrimentos do Jovem Werther, do escritor Goethe.
O romance foi desenvolvido simultaneamente ao álbum Canções Para Ouvir Após a Meia-Noite, da banda Sem Nau. Cada capítulo do livro corresponde a uma faixa do disco, seguindo uma ordem narrativa inspirada na arquitetura afetiva do romance de Goethe — do encontro à idealização, da impossibilidade ao depois.
Todas as músicas foram compostas, arranjadas e produzidas pelo próprio autor e estão disponíveis gratuitamente para download, além de estarem em todas as plataformas de streaming, ampliando o acesso ao projeto artístico como um todo. A seguir, o autor – que é conhecido por sua obra poética, fala ao Portal Archa sobre o processo de criação, as referências teóricas e a relação entre literatura, música e desejo:
Portal Archa: Este é seu primeiro romance amoroso publicado. Por que escolher esse momento para lançá-lo?
Antonio Archangelo: O que me interessava era compreender o que permanece quando o amor não se realiza — o que sobra, o que muda, o que precisa ser reorganizado. Só consegui escrever quando a experiência deixou de ser impulso e se transformou em pensamento. Quando o afeto já não exigia resposta imediata, mas elaboração. Nesse sentido, o livro não nasce da urgência de dizer, mas da necessidade de entender. Ele não registra o acontecimento em si, mas o modo como ele reconfigura a forma de viver, desejar e seguir adiante.
Portal Archa: O livro nasce junto com um álbum. Qual é a lógica dessa construção conjunta?
Antonio Archangelo: A lógica é a do desejo, não a da narrativa linear. Eu não queria que o livro obedecesse à estrutura clássica do romance, com começo, meio e fim bem delimitados, porque a experiência afetiva não se organiza assim. Ela se dá por intensidades, retornos, silêncios, excessos. A música tem uma capacidade própria de sustentar esse movimento, de insistir onde a palavra ainda não dá conta.
As canções funcionaram como pontos de condensação afetiva. Cada faixa abriu um campo emocional específico — um clima, um ritmo interno, uma insistência. A escrita entrou depois, não para explicar a música, mas para elaborar o que ela colocava em jogo. Por isso, cada capítulo se amarra a uma faixa: não como trilha sonora, mas como estrutura.
Essa construção conjunta também é uma forma de deslocar o leitor de uma posição passiva. A música convida à escuta, à repetição, ao retorno. O texto exige pausa, leitura e distanciamento. Juntos, livro e álbum produzem uma experiência que não se resolve rapidamente, mas se atravessa no tempo.
No fundo, é uma tentativa de respeitar a própria lógica do afeto: algo que não se fecha, não se conclui, mas deixa marcas que precisam ser trabalhadas — às vezes com som, às vezes com silêncio, às vezes com palavras.
Portal Archa: Por isso cada capítulo está ligado a uma faixa específica?
Antonio Archangelo: Exatamente. Não se trata de trilha sonora nem de ilustração do texto. As faixas e os capítulos obedecem à mesma lógica afetiva e narrativa. Cada música funcionou como um disparador — um ponto de condensação do desejo, da expectativa ou da frustração — e o capítulo nasce desse campo aberto pela canção.
Além disso, a ordem das músicas e dos capítulos segue uma arquitetura inspirada em Os Sofrimentos do Jovem Werther. Não no sentido de recontar a história de Goethe, mas de reinscrever seu percurso emocional: o encontro, a idealização, o excesso, a impossibilidade e o depois. Onde o romantismo clássico encerrava o percurso na tragédia, o livro insiste na elaboração.
Essa amarração permite que o leitor perceba que o afeto não se desenvolve de forma linear. Ele retorna, se repete, se desloca. A música sustenta esse movimento circular; o texto trabalha suas consequências. Por isso, cada capítulo precisa daquela faixa específica: não por afinidade estética apenas, mas porque ela define o tempo, o ritmo e o ponto de tensão da narrativa naquele momento.
Ler o livro com as músicas por perto não é obrigatório, mas amplia a experiência. A canção mantém o afeto em suspensão; a escrita oferece o espaço para pensá-lo.
Portal Archa: Por que dialogar com Os Sofrimentos do Jovem Werther hoje?
Antonio Archangelo: Porque Werther é, ao mesmo tempo, um marco e um limite. Ele inaugura a escrita confessional moderna e dá forma literária ao sofrimento amoroso como experiência absoluta. Mas também revela a incapacidade de sua época de elaborar o fracasso do desejo sem transformá-lo em tragédia. Dialogar com Goethe hoje é reconhecer essa herança — e tensioná-la.
O que me interessava não era atualizar Werther, nem repetir seu gesto, mas escrever depois dele. Entender como aquele modelo de amor — totalizante, idealizado e sem mediação possível com a realidade — continua produzindo efeitos até hoje, tanto na literatura quanto na forma como socialmente aprendemos a sofrer, amar e perder.
Ao organizar o livro a partir de uma arquitetura inspirada em Werther, mas conduzi-lo a outro desfecho, o romance propõe uma inflexão ética. Onde Goethe encerra na aniquilação, eu insisto na elaboração. Onde o romantismo transforma a dor em prova de autenticidade, o livro aposta na lucidez como forma de permanência.
Dialogar com Werther hoje é, portanto, um gesto crítico. É olhar para a tradição não para reproduzi-la, mas para deslocá-la. É perguntar que outras narrativas sobre o amor são possíveis quando recusamos a ideia de que sofrer até o fim é a única forma legítima de sentir intensamente.
Portal Archa: E onde entra Foucault nesse processo?
Antonio Archangelo: Foucault entra no ponto exato em que a experiência deixa de ser apenas vivida e passa a ser intencionalmente organizada como discurso social. No caso de Para Nunca Esquecer de Mim, isso ocorre desde o próprio gesto inaugural do livro: a narrativa nasce de uma aposta entre três conhecidos. Esse dado não é casual nem folclórico — ele é estrutural.
A aposta funciona como um dispositivo, no sentido foucaultiano do termo. Ela cria uma regra, um limite, um prazo, uma expectativa de resultado. A partir daí, a experiência afetiva deixa de ser apenas privada e passa a ser performada sob um regime de observação, linguagem e sentido. O desejo não é apenas sentido; ele é colocado em jogo, narrado, testado, comentado. E, ao ser narrado, passa a existir socialmente.
É nesse ponto que a noção de cuidado de si, retomada por Foucault a partir da Antiguidade Clássica, se torna central. A escrita surge como prática ética de elaboração da experiência, não como confissão ou catarse, mas como exercício reflexivo diante de uma situação real. O livro dialoga com tradições como o tetraphármakon epicurista: não absolutizar o amor, não divinizar o sofrimento, reconhecer os limites do prazer e sustentar a dor sem transformá-la em espetáculo.
Mas há um passo além. Ao assumir a aposta como motor narrativo, o livro torna explícito que não existe experiência fora do discurso. A aposta produz fala, interpretação, julgamento, expectativa — e tudo isso retorna ao sujeito como forma de viver a própria experiência. O real não antecede o discurso de maneira pura; ele é atravessado por ele.
Assim, Para Nunca Esquecer de Mim explicita algo que muitas narrativas escondem: o fato de que o amor, o fracasso e o sofrimento são socialmente construídos, regulados por narrativas compartilhadas, por modelos herdados e por expectativas coletivas. Ao transformar uma aposta em estrutura narrativa, o livro evidencia como os discursos moldam o modo como sentimos, agimos e lembramos.
Essa escolha é deliberada. Ao recusar a romantização trágica do colapso e ao expor o jogo discursivo que envolve o afeto, o livro intervém no imaginário social. Ele disputa os sentidos disponíveis sobre o amor: não como destino inevitável, nem como prova de aniquilação, mas como experiência situada, atravessada por linguagem, regras e olhares.
Nesse sentido, o romance é um gesto político no sentido foucaultiano mais preciso. Ao narrar uma aposta, ele revela como a vida cotidiana já é atravessada por dispositivos de poder e produção de sentido. E ao escrever sobre isso, não apenas registra uma experiência pessoal, mas produz conscientemente um discurso que retorna ao mundo como possibilidade de leitura, de vida e de escolha.
O cuidado de si, aqui, não é isolamento introspectivo. É responsabilidade ética sobre os discursos que produzimos — porque eles não ficam no papel. Eles moldam o real que habitamos.
Portal Archa: As músicas estão disponíveis gratuitamente. Isso é uma escolha política?
Antonio Archangelo: Também. A música é o convite. O livro é o aprofundamento. Quem quiser apenas ouvir, pode. Quem quiser entender o que acontece depois da canção, compra o livro. Não faz sentido fechar o acesso quando a obra fala justamente de circulação, desejo e elaboração.
Portal Archa: O que você espera do leitor?
Antonio Archangelo: Que leia sem pressa. Se puder, com fones de ouvido por perto. Não é um romance de consumo rápido nem de catarse. É um livro sobre lucidez emocional. E isso exige tempo.
Onde acessar
📘 Livro
Para Nunca Esquecer de Mim — e-book à venda no Clube dos Autores
👉 https://clubedeautores.com.br/livro/para-nunca-esquecer-de-mim – R$ 29,56
🎧 Álbum
Canções Para Ouvir Após a Meia-Noite — download gratuito + streaming
👉 https://bandasemnau.manus.space
