Projeto aposta na literatura afro-brasileira e indígena como ferramenta de educação antirracista

Um projeto desenvolvido no Instituto Federal Fluminense (IFF) – Campus Itaperuna, no interior do Rio de Janeiro, tem demonstrado como a literatura pode se tornar uma poderosa ferramenta pedagógica para o enfrentamento do racismo estrutural e a promoção dos direitos humanos nas escolas. A iniciativa integra o projeto “Literature-se”, que articula leitura, reflexão crítica e produção textual a partir de obras da literatura afro-brasileira e indígena.

A proposta dialoga diretamente com mudanças importantes na legislação educacional brasileira. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei nº 9.394/1996) foi alterada pela Lei nº 10.639/2003, que tornou obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira nas escolas. Mais tarde, a Lei nº 11.645/2008 ampliou essa obrigatoriedade, incluindo também a história e cultura dos povos indígenas no currículo escolar.

Nesse cenário, o componente curricular de Literatura ganha papel estratégico. O projeto parte da ideia de que os textos literários não apenas narram histórias, mas também ajudam a revelar estruturas sociais, disputas de memória e processos de invisibilização histórica. Ao trabalhar com autores e perspectivas afro-brasileiras e indígenas, a proposta busca questionar estereótipos historicamente reproduzidos no ambiente escolar e ampliar o repertório cultural dos estudantes.

Desenvolvido pelas estudantes Ana Sophia Goulart da Silva Borges e Beatriz Carvalho Pinheiro, sob orientação da professora Giselda Maria Dutra Bandoli, o projeto investiga como práticas pedagógicas baseadas na literatura podem contribuir para a construção de uma educação comprometida com a equidade racial e a diversidade cultural.

As atividades incluem leitura crítica de textos, debates, produção escrita e ações culturais que aproximam os estudantes das discussões sobre racismo, colonialidade e democracia. Segundo as autoras, a literatura funciona como uma espécie de laboratório simbólico: ao entrar em contato com diferentes narrativas, os estudantes são convidados a refletir sobre seu próprio lugar no mundo e sobre as experiências históricas de grupos socialmente marginalizados.

Entre os resultados observados estão o fortalecimento da formação de leitores críticos, o estímulo à produção de textos autorais e o engajamento da comunidade escolar nas atividades propostas. O projeto também reforça a importância de deslocar o centro do debate educacional da chamada “branquitude normativa”, abrindo espaço para perspectivas plurais e decoloniais no ensino de literatura.

Do ponto de vista teórico, a pesquisa dialoga com autores que discutem representatividade, literatura e decolonialidade, como Regina Dalcastagnè, Julie Dorrico, Eliane Potiguara Graúna, Grada Kilomba, Djamila Ribeiro e Beatriz Pinheiro. A iniciativa conta ainda com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ).

Em um país marcado por profundas desigualdades raciais e históricas, experiências como essa indicam que a literatura pode cumprir um papel que vai muito além da estética: ela pode ajudar a formar sujeitos críticos, capazes de reconhecer as múltiplas vozes que compõem a sociedade brasileira.


Referência
BORGES, Ana Sophia Goulart da Silva; PINHEIRO, Beatriz Carvalho; BANDOLI, Giselda Maria Dutra. Literatura afro-brasileira e indígena: leituras e ações antirracistas. Projeto de pesquisa (Médio/Técnico), Instituto Federal Fluminense – Campus Itaperuna, área de Linguística, Letras e Artes. Fomento: FAPERJ.

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