Do patrimonialismo à governança em rede: como a gestão pública mudou — e por que isso importa hoje

A forma como o Estado brasileiro (e o mundo) se organiza para atender a população não surgiu do nada — ela é resultado de uma longa disputa entre modelos de poder, controle e eficiência. Um estudo recente analisa essa trajetória e mostra que a administração pública passou por três grandes fases: do patrimonialismo à burocracia, da burocracia ao gerencialismo e, mais recentemente, à governança em rede.

No modelo patrimonialista, predominante no Brasil até o início do século XX, não havia distinção clara entre o público e o privado. O Estado funcionava como extensão dos interesses da elite, com cargos distribuídos por relações pessoais, e não por mérito. Foi contra essa lógica que surgiu a burocracia moderna, inspirada em Max Weber, baseada na impessoalidade, hierarquia e regras formais.

O problema é que o remédio virou veneno. Ao longo do tempo, a burocracia passou a ser vista como lenta, engessada e mais preocupada com processos do que com resultados. A crítica ganhou força a partir das crises fiscais dos anos 1970, quando governos passaram a gastar mais do que conseguiam entregar à população.

É nesse cenário que emerge a chamada Nova Gestão Pública (NGP), inspirada em práticas do setor privado. A lógica muda: sai o foco no procedimento, entra o foco no resultado. O cidadão passa a ser tratado como “cliente”, e conceitos como eficiência, desempenho e competição entram no vocabulário do Estado.

Mas a promessa de modernização também revelou seus limites. A importação de modelos de mercado para o setor público nem sempre funcionou, especialmente em países com menor capacidade institucional. Experiências internacionais mostram que reformas gerencialistas frequentemente esbarram em problemas políticos, técnicos e culturais, além de gerarem fragmentação dos serviços e enfraquecimento da coordenação estatal.

É a partir dessas falhas que ganha força um novo paradigma: a governança pública. Diferente dos modelos anteriores, ela parte da ideia de que problemas complexos — como desigualdade, sustentabilidade e saúde pública — não podem ser resolvidos nem pelo Estado sozinho, nem pelo mercado isoladamente.

A solução passa pela articulação em rede. Governo, setor privado e sociedade civil passam a atuar de forma colaborativa, compartilhando responsabilidades e construindo soluções conjuntas. No Brasil, iniciativas como programas ambientais no Amazonas mostram como essa lógica de governança pode integrar políticas fiscais, ambientais e sociais em uma mesma estratégia.

Se o patrimonialismo confundia o público com o privado, e a burocracia confundia regra com resultado, a governança em rede revela um novo desafio: aprender a governar em um mundo onde ninguém resolve nada sozinho. O futuro da gestão pública talvez não esteja em escolher um modelo ideal, mas em saber equilibrar controle, eficiência e participação — sem esquecer que, no fim, o Estado não tem clientes. Tem cidadãos.

Referência

SILVA NETO, Amauri Plácido da; SOUZA, Aureliano Pereira de. Do patrimonialismo à governança em rede: a evolução dos modelos de gestão pública. 2026.

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