Um estudo realizado por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) revelou um panorama preocupante sobre a regionalização do Sistema Único de Saúde (SUS) no estado de São Paulo. Apesar das intenções de descentralizar a gestão da saúde e melhorar os serviços prestados à população, a pesquisa apontou que a regionalização ainda enfrenta grandes desafios e falhas estruturais.
O artigo — publicado em 2018 na revista Saúde e Sociedade — é assinado por Marco Antonio Catussi Paschoalotto, João Luiz Passador, Cláudia Souza Passador, Lilian Ribeiro de Oliveira e Marina Kolland Dantas, todos da USP, e José Eduardo Ferreira Lopes, da Universidade Federal de Uberlândia (UFU). O trabalho desenvolveu o Indicador Sintético Regional de Saúde (ISRS/SP), uma ferramenta inédita para medir a eficiência, eficácia e efetividade dos Departamentos Regionais de Saúde (DRS) do estado.
A avaliação mostrou uma concentração de melhores desempenhos no interior paulista, com destaque para regiões como São José do Rio Preto, Barretos e Presidente Prudente. No entanto, o levantamento também revelou que mais dinheiro não significa necessariamente melhor resultado: não há relação direta entre maior financiamento e qualidade dos serviços.
Segundo os pesquisadores, mesmo DRS com bons índices de cobertura e produção, como Araçatuba e Marília, tiveram notas baixas em qualidade dos serviços prestados. A análise sugeriu que priorizar apenas eficiência e quantidade de atendimentos não garante efetividade — ou seja, não assegura melhoria real na saúde da população.
Ranking dos Departamentos Regionais de Saúde: Quem se Destaca?
O estudo montou um ranking de desempenho dos DRS com base no ISRS/SP, permitindo comparar regiões em termos de financiamento, cobertura, recursos humanos, produção de serviços e qualidade. Confira:
| Ranking | DRS | ISRS/SP |
|---|---|---|
| 1º | São José do Rio Preto | 3,05 |
| 2º | Barretos | 2,96 |
| 3º | Presidente Prudente | 2,92 |
| 4º | Araçatuba | 2,89 |
| 5º | Marília | 2,89 |
| 6º | Registro | 2,84 |
| 7º | Ribeirão Preto | 2,83 |
| 8º | Franca | 2,83 |
| 9º | Campinas | 2,81 |
| 10º | Bauru | 2,73 |
| 11º | São João da Boa Vista | 2,73 |
| 12º | Araraquara | 2,70 |
| 13º | Baixada Santista | 2,68 |
| 14º | Piracicaba | 2,68 |
| 15º | Taubaté | 2,66 |
| 16º | Sorocaba | 2,65 |
| 17º | Grande São Paulo | 2,61 |
Desempenho Regional em Detalhe
- São José do Rio Preto (1º lugar): Destaque absoluto em cobertura (2,90) e produção SUS (3,99), ainda que com financiamento (2,63) e recursos humanos (2,27) abaixo da média. Demonstra alta capacidade de atendimento mesmo com limitações de recursos.
- Barretos (2º): Forte em recursos humanos (3,23) e produção SUS (3,65), mas sofre com qualidade do SUS (2,58) um pouco mais baixa. Mostra bom equilíbrio na gestão local.
- Presidente Prudente (3º): Brilhou em recursos humanos (3,39) e cobertura (3,23), mas com qualidade (2,66) moderada. Mesmo com financiamento abaixo (2,44), conseguiu bom desempenho geral.
- Araçatuba (4º): Excelente em cobertura (2,98) e bons resultados em recursos humanos (3,09). Qualidade do SUS (2,74) apenas mediana.
- Marília (5º): Equilíbrio em cobertura (2,76) e qualidade (3,06), com boa produção (3,07).
- Baixada Santista (13º): Um contraste curioso: qualidade do SUS alta (3,33) mas cobertura fraca (1,87) e produção baixa (2,32), mostrando desigualdade na oferta.
- Sorocaba (16º): Boa qualidade (3,44) mas com cobertura (2,23) e financiamento (2,51) deficitários, além de desafios em produção.
- Grande São Paulo (17º): Último colocado, com recursos humanos muito baixos (1,26) e cobertura insuficiente (2,27). Apesar de qualidade alta (3,24), sofre com escala e complexidade urbana.
Regionalização: Avanços e Desafios
Os pesquisadores ressaltam que a regionalização, implantada para dar autonomia e racionalidade ao SUS, ainda enfrenta dificuldades como falta de integração entre os níveis de governo, desigualdades históricas e subfinanciamento. A descentralização sem articulação gerou disparidades entre regiões — com áreas que conseguiram se adaptar melhor e outras que ficaram para trás.
Para eles, o ISRS/SP é uma ferramenta que pode ajudar a tomar decisões mais baseadas em evidências, permitindo identificar gargalos e planejar ações mais justas. A ideia é que o método sirva de modelo para outras regiões do Brasil, estimulando um SUS mais integrado e equitativo.
A Proposta dos Pesquisadores
Além de apresentar o diagnóstico, os autores defendem que o fortalecimento da regionalização precisa ir além do repasse de verbas. É preciso investir em recursos humanos, infraestrutura e governança colaborativa — garantindo que a descentralização funcione de fato como um meio de aproximar o cuidado das populações e reduzir desigualdades históricas.
Referência do Estudo
PASCHOALOTTO, Marco Antonio Catussi; PASSADOR, João Luiz; PASSADOR, Cláudia Souza; OLIVEIRA, Lilian Ribeiro de; LOPES, José Eduardo Ferreira; DANTAS, Marina Kolland. A regionalização do SUS: proposta de avaliação de desempenho dos Departamentos Regionais de Saúde do estado de São Paulo. Saúde Soc. São Paulo, v. 27, n. 1, p. 80–93, 2018. DOI: 10.1590/S0104-12902018170095.
