Municípios ainda digitalizam mais do que transformam, aponta estudo sobre eleições de 2024

Um estudo apresentado na 26ª edição da Dg.o – International Conference on Digital Government Research, realizada em julho de 2025 em Porto Alegre (RS), lança luz sobre como os principais candidatos a prefeito de grandes cidades brasileiras têm lidado com a pauta da transformação digital. A pesquisa analisou os planos de governo de 142 candidaturas em 46 municípios com mais de 500 mil habitantes, incluindo todas as capitais estaduais.

Intitulado Digital Transformation, Technology, and Innovation: Analysis of Mayoral Candidates’ Proposals in the 2024 Brazilian Municipal Elections, o artigo é assinado por Daniel S. Valotto (UFPR), Beatriz B. B. Lanza (BID) e Thiago J. T. Ávila (FGV-SP), e revela uma predominância de propostas voltadas ao chamado governo digital — com foco em serviços públicos digitais, automação de processos e plataformas online. Das 2.557 propostas mapeadas, 49,6% se enquadram nessa dimensão.

Digitalização sim, Transformação Digital ainda não

Apesar da profusão de termos como “tecnologia”, “inovação”, “plataforma digital” e “inteligência artificial” nos documentos analisados, o estudo mostra que as iniciativas propostas seguem majoritariamente ancoradas em soluções técnicas voltadas à eficiência administrativa. Em contraste, áreas como inclusão digital, direitos humanos, inteligência artificial aplicada a políticas sociais e equidade territorial aparecem com tímida incidência: menos de 2% das propostas em cada uma dessas categorias.

Essa assimetria sinaliza um desafio importante: embora o discurso sobre transformação digital esteja presente nos planos de governo, a prática ainda se limita, em grande parte, à digitalização de serviços já existentes, sem romper com os modelos tradicionais de gestão ou incluir efetivamente a população mais vulnerável no desenho dessas políticas.

Cidades como laboratório da inovação pública?

O estudo, no entanto, também oferece pistas sobre o potencial das cidades como territórios experimentais de inovação. Municípios como Aracaju, Curitiba, Salvador e Palmas aparecem entre os mais propositivos, com planos que incluem plataformas cidadãs, telemedicina, incentivo a startups e hubs de inovação. Ainda assim, os autores destacam que muitas dessas propostas carecem de articulação com políticas estruturantes de longo prazo e de indicadores que permitam avaliar seus impactos reais.

Outro ponto crítico é a fragmentação das estratégias digitais no Brasil, reflexo da ausência de um marco nacional que oriente e articule as ações dos entes subnacionais. Nesse contexto, a implementação de políticas públicas digitais segue altamente desigual entre as regiões, reproduzindo — e, por vezes, aprofundando — os abismos sociais e tecnológicos do país.

E depois da eleição?

Por fim, o estudo lança uma provocação fundamental: quantas dessas promessas serão efetivamente implementadas após a posse dos eleitos? E mais: quais serão os critérios para avaliar seu sucesso? A pesquisa aponta caminhos, mas reforça a necessidade de monitoramento contínuo, análise territorializada e participação cidadã no acompanhamento das políticas digitais municipais.

Para pesquisadores, gestores e ativistas da cultura digital, o estudo representa uma base sólida de dados e reflexões sobre o papel das tecnologias na administração pública municipal brasileira — um campo ainda em construção, mas cada vez mais estratégico.

Referência

VALOTTO, Daniel S.; LANZA, Beatriz B. B.; ÁVILA, Thiago J. T. Digital Transformation, Technology, and Innovation: Analysis of Mayoral Candidates’ Proposals in the 2024 Brazilian Municipal Elections. In: Dg.o 2025 – 26th Annual International Conference on Digital Government Research, 2025, Porto Alegre. DOI: https://doi.org/10.59490/dgo.2025.960

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