Inteligência Artificial no SUS: estudo revela avanços discretos, desafios estruturais e riscos éticos

A Inteligência Artificial (IA) já está entre nós — também no Sistema Único de Saúde. Mas seu uso ainda é restrito, fragmentado e concentrado nos grandes centros. Essa é a principal constatação do Trabalho de Conclusão de Curso da tecnóloga em Gestão Hospitalar Francisca Letícia da Silva Araújo, defendido na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). A pesquisa mapeia aplicações reais da IA na saúde pública brasileira, analisa os desafios que impedem sua consolidação e propõe diretrizes para uma adoção ética, equitativa e sustentável.

Orientado pela professora Ana Flávia de Souza Timóteo, o estudo vai além dos discursos genéricos sobre inovação. Letícia identificou, com base em 52 estudos científicos e documentos oficiais, que a IA tem sido usada principalmente em três áreas: vigilância epidemiológica, regulação de leitos e logística hospitalar e triagem/telessaúde. Ferramentas como o InfoDengue, o InfoGripe e chatbots de triagem na COVID-19 mostram que o Brasil já aplica algoritmos em decisões públicas. O problema? Essas soluções estão majoritariamente em centros urbanos com infraestrutura avançada, o que aprofunda desigualdades territoriais.

O que Letícia traz de novo ao debate é a sistematização crítica dessas experiências. Ao invés de apenas citar boas práticas, ela mostra as barreiras que atravessam a IA no SUS: falta de conectividade nos municípios menores, escassez de profissionais capacitados em ciência de dados e saúde digital, e lacunas ético-legais diante do uso automatizado de dados sensíveis da população.

Com ênfase na governança, a autora propõe que o uso da IA seja entendido como uma política pública, não como projeto piloto. “A inteligência artificial só será estratégica se estiver integrada ao planejamento, à equidade territorial e à proteção de dados”, afirma o trabalho. Letícia também alerta que a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), apesar de avançada, ainda não responde aos dilemas dos algoritmos de “caixa-preta” usados por órgãos públicos. Falta responsabilização, auditoria e participação cidadã no processo.

Outra contribuição relevante está na proposta de inserção curricular de temas como IA, ética algorítmica e governança digital nos cursos de saúde. A autora defende que sem uma nova formação para gestores, profissionais e técnicos, os projetos existentes se tornam frágeis, pouco escaláveis e suscetíveis a erros técnicos ou distorções sociais.

O estudo de Letícia pode servir como base referencial para gestores públicos, pesquisadores e conselhos de saúde interessados em integrar inovação com responsabilidade. Ao sistematizar o que já existe, evidenciar as assimetrias e propor caminhos críticos, o trabalho se destaca como uma contribuição valiosa à construção de um SUS digital, inclusivo e ético.


Referência
ARAÚJO, Francisca Letícia da Silva. Inteligência artificial na gestão de saúde pública: aplicações e desafios no cenário SUS. Orientadora: Ana Flávia de Souza Timóteo. Natal: Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Escola de Saúde, Curso Superior de Tecnologia em Gestão Hospitalar, 2025. Trabalho de Conclusão de Curso.

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