Trabalho acadêmico defende que respeitar o tempo das crianças pode ser mais produtivo do que acelerar a aprendizagem
O tempo na escola infantil não cabe apenas no relógio. Uma pesquisa defendida na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) pelo pedagogo André Ricardo Fava revela que a rotina da pré-escola, marcada por horários rígidos e interrupções constantes, muitas vezes sufoca as experiências significativas da infância. Entre o tempo institucional (chronos) e o tempo vivido pelas crianças (kairos), o estudo mostra que é no segundo que se produzem aprendizagens autênticas, vínculos e bem-estar.
Entre o relógio e o brincar
Fava acompanhou duas turmas de pré-escola, com crianças de 4 a 5 anos, utilizando observação participante e análise documental. Constatou que, embora haja planejamento, as microtransições (como formar filas, trocar de ambiente ou reorganizar atividades), as demandas burocráticas e os imprevistos institucionais reduzem drasticamente a qualidade do tempo escolar. “A criança brincante não lida bem com o tempo que a interrompe”, observa o trabalho.
Ao analisar momentos de brincadeira livre e intervenções docentes, a pesquisa conclui que uma gestão mais sensível do tempo favorece a autonomia, a criatividade e a construção de saberes. “Perder tempo para ganhar tempo” – como sugere a pedagogia do caracol (Zavalloni) – aparece como metáfora central: a desaceleração pode potencializar aprendizagens e tornar a escola um espaço menos colonizado pelo produtivismo.
Alienação, adultocentrismo e rotina acelerada
Inspirado em autores como Paulo Freire, Norbert Elias, Carl Honoré e Maria Carmen Barbosa, o trabalho critica a transposição da lógica capitalista de aceleração para o ambiente escolar. Essa cultura, segundo o autor, gera uma espécie de “hamsterização da infância”, em que o tempo é reduzido a tarefas e metas, sem escuta e sem espaço para a experiência.
O estudo também denuncia o adultocentrismo: a escola organiza o tempo segundo necessidades dos adultos, ignorando os ritmos singulares das crianças. “O tempo da janela, o tempo de acordar ou de explorar a areia não se encaixam nas programações prévias dos adultos e ainda estão longe de serem pauta de suas reflexões”, aponta o texto.
Por uma pedagogia do desaceleramento
A pesquisa defende a necessidade de uma nova pedagogia do tempo, que recuse a lógica da pressa e valorize experiências abertas, dialógicas e não produtivistas. Para Fava, cabe aos docentes construir rotinas mais flexíveis e responsivas, capazes de equilibrar organização institucional e ritmos da infância.
“Quando a escola abre brechas para o tempo da criança, ela não perde eficiência; pelo contrário, ganha humanidade e sentido pedagógico.”
📌 Referência:
FAVA, André Ricardo. A gestão do tempo no cotidiano da Educação Infantil. Trabalho de Conclusão de Curso (Licenciatura em Pedagogia) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2025.
