Comércio brasileiro gera empregos, mas continua sustentado por baixos salários e jornadas exaustivas

O setor do comércio vive um momento de expansão no país, com crescimento do emprego formal e reajustes salariais acima da inflação, segundo boletim especial divulgado pelo DIEESE nesta quinta-feira (9). Apesar do avanço, o estudo aponta que os velhos problemas permanecem intocados: informalidade elevada, desigualdade salarial entre homens e mulheres, longas jornadas e remuneração ainda baixa para a maioria.

De acordo com os dados da PnadC/IBGE e da Rais/MTE, o comércio empregou 19,5 milhões de trabalhadores em 2024, dos quais 10,6 milhões com carteira assinada. Entre 2022 e 2024, o setor gerou mais de 514 mil vagas formais, com destaque para micro e pequenos negócios — embora o Sudeste concentre metade dos empregos, foram as regiões Norte e Nordeste as que mais cresceram proporcionalmente.

Os salários, no entanto, seguem em patamar baixo: a remuneração média real foi de R$ 2.692,50 em 2024, ainda 4,3% abaixo do nível de 2017, apesar da recuperação recente. As mulheres ganham 13,1% a menos que os homens, e o varejo, onde se concentra 69% da força de trabalho, é o segmento de menor remuneração média.

Além disso, 91% dos trabalhadores cumprem 40 horas semanais ou mais, sendo 85% com jornada fixa de 44 horas — com funções como gerentes de loja ultrapassando as 48 horas semanais em média, o que reforça a importância do debate sobre redução da jornada sem corte de salário.

Do lado positivo, as negociações coletivas voltaram a garantir ganhos reais. Em 2024, 88,3% dos acordos tiveram reajuste acima do INPC, e entre janeiro e agosto de 2025, o índice se manteve em 81,7%. A variação real média salarial atingiu +0,87% em 2024 e segue em +0,73% em 2025.

A combinação de queda da inflação, ampliação de políticas sociais e possível redução dos juros deve sustentar o consumo nos próximos meses, segundo o DIEESE. A reforma do Imposto de Renda prevista para 2026, que isenta salários até R$ 5 mil, pode injetar R$ 27 bilhões anuais na economia — e grande parte desse recurso deve escoar pelo comércio.

O boletim conclui que, para transformar o setor em vetor de trabalho decente, será necessário enfrentar a informalidade, reduzir a desigualdade de gênero, valorizar salários e encurtar jornadas — caso contrário, o comércio seguirá crescendo às custas do tempo e da saúde de quem sustenta seus caixas.


Referência (ABNT):
DIEESE – Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos. Mais empregos e reajustes com ganhos reais no comércio, mas problemas estruturais persistem. Nota à imprensa, 09 out. 2025. Disponível em: https://www.dieese.org.br/boletimespecial/2025/boletimEspecialComercio.pdf. Acesso em: 13 out. 2025

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