A avaliação da capacidade física de pessoas com obesidade grau III — condição que impõe limitações severas à mobilidade e à saúde cardiovascular — pode ganhar mais precisão e praticidade no Sistema Único de Saúde (SUS). Estudo publicado em janeiro de 2026 na Revista PPC – Políticas Públicas e Cidades apresenta uma equação simples para predizer a distância percorrida no Teste de Caminhada de Seis Minutos (TC6), utilizando apenas informações básicas disponíveis na atenção primária, como idade, sexo e índice de massa corporal (IMC).
O artigo “Predição da distância percorrida no teste de caminhada de seis minutos em pacientes com obesidade grau III: ferramenta aplicável à realidade do SUS” foi desenvolvido por Everlize Rengel, Fernanda Pfeffer e Marcelo Taglietti, a partir da análise de prontuários de 183 pacientes atendidos entre 2019 e 2024 em um ambulatório de fisioterapia pré-operatória para cirurgia bariátrica, no Paraná.
O TC6 é um dos testes mais utilizados para medir a capacidade funcional de pacientes com doenças crônicas, inclusive no SUS, por ser de baixo custo e fácil aplicação. No entanto, até então, faltavam equações específicas para pessoas com obesidade mórbida, o que dificultava a interpretação dos resultados e o planejamento terapêutico na atenção básica.
A pesquisa desenvolveu uma equação preditiva baseada em regressão linear múltipla, capaz de estimar a distância esperada no teste a partir de variáveis rotineiramente coletadas nos serviços públicos de saúde. Segundo os autores, a proposta supre uma lacuna importante, ao oferecer um instrumento adaptado à realidade do SUS, onde exames sofisticados e equipamentos de alta complexidade nem sempre estão disponíveis.
Os resultados indicam que a idade e o IMC têm impacto direto na redução da capacidade funcional, enquanto o sexo foi mantido no modelo por sua relevância clínica. Embora o poder explicativo da equação seja moderado, os pesquisadores destacam que isso é compatível com a natureza multifatorial do desempenho físico, influenciado também por fatores como força muscular, função respiratória, motivação e presença de comorbidades.
O estudo ressalta que a obesidade grau III vem crescendo no Brasil, especialmente entre populações socialmente vulneráveis, o que gera sobrecarga crescente sobre a atenção primária e os serviços especializados do SUS. Nesse contexto, ferramentas simples e validadas ganham importância estratégica para triagem funcional, acompanhamento de pacientes, planejamento de reabilitação e avaliação pré-operatória, especialmente em programas de cirurgia bariátrica.
Ao propor um modelo de fácil aplicação, os autores defendem que a equação pode contribuir para decisões clínicas mais seguras, uso racional de recursos públicos e intervenções mais precoces, evitando agravamento de limitações funcionais e complicações associadas à obesidade grave.
O artigo conclui que o Teste de Caminhada de Seis Minutos, aliado a equações preditivas adaptadas à realidade brasileira, reforça o papel da fisioterapia e da atenção primária na promoção da saúde e na prevenção de incapacidades, ampliando a capacidade de resposta do SUS frente a um dos maiores desafios contemporâneos da saúde pública.
Referência
RENGEL, Everlize; PFEFFER, Fernanda; TAGLIETTI, Marcelo. Predição da distância percorrida no teste de caminhada de seis minutos em pacientes com obesidade grau III: ferramenta aplicável à realidade do SUS. Revista PPC – Políticas Públicas e Cidades, Curitiba, v. 15, n. 1, p. 1–16, 2026. DOI: 10.23900/2359-1552v15n1-5-2026.
