Tecnologias digitais avançam na gestão do SUS, mas desigualdades e falta de integração ainda limitam resultados

Um estudo recente publicado na Revista DCS analisa a aplicabilidade das tecnologias digitais na gestão do Sistema Único de Saúde (SUS) e aponta que, embora a digitalização tenha promovido ganhos relevantes em eficiência administrativa, transparência e tomada de decisão, persistem entraves estruturais que comprometem a universalização e a efetividade dessas ferramentas no sistema público de saúde brasileiro.

Assinado por Bruno Tiago Pessoa e outros nove pesquisadores de instituições de diferentes regiões do país, o artigo examina o uso de sistemas de informação em saúde, prontuários eletrônicos, plataformas digitais de monitoramento e tecnologias da informação e comunicação aplicadas à gestão, com foco nos processos administrativos e estratégicos do SUS. A pesquisa, de natureza qualitativa e baseada em revisão bibliográfica, destaca que essas tecnologias têm contribuído para padronizar rotinas, otimizar recursos e qualificar o acompanhamento de políticas públicas, especialmente em contextos de emergência sanitária.

De acordo com os autores, a experiência da pandemia da COVID-19 evidenciou o papel estratégico das ferramentas digitais na gestão do SUS. Sistemas de vigilância epidemiológica, bancos de dados integrados e plataformas de monitoramento foram fundamentais para o acompanhamento da evolução da doença, a alocação de recursos e a tomada de decisões em tempo real, reforçando a importância da transformação digital como elemento estrutural da gestão pública em saúde.

O estudo aponta ainda que a digitalização fortalece mecanismos de transparência e controle social, ao sistematizar informações sobre gastos públicos, produção de serviços e indicadores de desempenho. Esse processo amplia a capacidade de fiscalização e contribui para uma gestão mais alinhada aos princípios constitucionais da legalidade, da impessoalidade e da eficiência, pilares centrais do SUS.

Apesar dos avanços, a pesquisa identifica obstáculos significativos à consolidação plena da gestão digital no sistema de saúde. Entre os principais desafios estão a desigualdade regional de infraestrutura tecnológica, as restrições orçamentárias, a fragmentação dos sistemas de informação, a capacitação insuficiente dos profissionais e a resistência à mudança organizacional. Em muitas regiões, especialmente em municípios de pequeno porte e áreas mais vulneráveis, a falta de conectividade e de suporte técnico limita o uso contínuo e qualificado das tecnologias disponíveis.

Outro ponto crítico destacado pelos autores refere-se à segurança da informação e à proteção de dados pessoais em saúde. A digitalização amplia riscos relacionados ao vazamento e ao uso indevido de informações sensíveis, exigindo governança digital robusta e alinhamento às exigências da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). A ausência de políticas integradas de segurança compromete a confiança nos sistemas e restringe seu potencial de uso estratégico.

O artigo conclui que a aplicabilidade das tecnologias digitais na gestão do SUS apresenta um caráter ambivalente: ao mesmo tempo em que representa uma oportunidade concreta de modernização administrativa, também evidencia limites estruturais históricos do Estado brasileiro. Para os autores, a consolidação da transformação digital no SUS depende de investimentos contínuos em infraestrutura, políticas permanentes de capacitação, interoperabilidade entre sistemas, avaliação de impacto das tecnologias e fortalecimento da participação social nos processos decisórios.

Ao situar a tecnologia como meio — e não como solução isolada — o estudo reforça que a modernização da gestão em saúde exige planejamento, coordenação federativa e compromisso político. Sem isso, a digitalização corre o risco de aprofundar desigualdades já existentes, em vez de contribuir para a efetivação dos princípios de universalidade, integralidade e equidade que estruturam o SUS.


Referência

PESSOA, Bruno Tiago et al. Aplicabilidade de tecnologias digitais na gestão no Sistema Único de Saúde (SUS): análise dos desafios e avanços. Revista DCS, v. 23, n. 87, p. 1-15, 2026. DOI: 10.54899/dcs.v23i87.4507.

Deixe um comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

search previous next tag category expand menu location phone mail time cart zoom edit close