Um Trabalho de Graduação Individual apresentado na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo joga luz sobre uma parte pouco conhecida — e decisiva — da história da universidade brasileira: como professores e estudantes de geografia enfrentaram a ditadura militar e abriram caminho para a entrada do marxismo no pensamento acadêmico do país.
Assinado por Guilherme D’Alessandro Gonçalves Maglione, o trabalho analisa o papel das gerações de geógrafos formadas nas décadas de 1940 e 1950 e tem como personagem central o professor Pasquale Petrone, figura-chave do Departamento de Geografia da USP durante os anos mais duros do regime autoritário.
O estudo mostra que, muito antes da chamada “geografia crítica” ganhar força nos anos 1970, já existia dentro da universidade uma disputa silenciosa — e arriscada — por uma leitura do Brasil baseada na luta de classes, na formação social e na crítica ao modelo colonial. Petrone aparece nesse contexto como um professor que, mesmo não sendo um militante ortodoxo, atuou como verdadeiro escudo institucional para alunos e colegas perseguidos politicamente.
A pesquisa destaca como a obra Os Aldeamentos Paulistas, principal trabalho de Petrone, dialoga diretamente com o pensamento marxista de Caio Prado Júnior e propõe uma interpretação do território brasileiro marcada pelas permanências da colonização, da exploração e da desigualdade. Segundo o autor do TCC, essa leitura atravessou décadas e influenciou gerações inteiras de professores e pesquisadores, inclusive aqueles que protagonizaram a renovação crítica da geografia durante a abertura política.
Mais do que um resgate biográfico, o trabalho chama atenção para um problema atual: muitas das disputas travadas hoje sobre currículo, formação docente e mercantilização da universidade têm raízes nessas escolhas feitas no passado. Entender quem eram esses professores, como pensavam e como resistiram ajuda a explicar por que a universidade pública segue sendo um campo de conflito político.
Ao revisitar esse período, o estudo também dialoga com a trajetória histórica da Associação dos Geógrafos Brasileiros e reforça a ideia de que a geografia nunca foi neutra: sempre esteve ligada a projetos de país, interesses de classe e visões concorrentes sobre o futuro do Brasil.
Referência
MAGLIONE, Guilherme D’Alessandro Gonçalves. Pasquale Petrone, as gerações de 1940 e 1950 e a herança da geografia brasileira: bases para um estudo da geografia marxista no Brasil. 2025. Trabalho de Graduação Individual (Bacharelado em Geografia) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2025.
