Ensinar filosofia não é decorar filósofos: estudo defende sala de aula como espaço vivo de pensamento

Em meio às disputas sobre currículo, utilitarismo educacional e esvaziamento das humanidades, um estudo apresentado no IX Encontro Nacional das Licenciaturas (ENALIC) provoca uma pergunta incômoda — e necessária: o que, afinal, significa ensinar filosofia hoje?

Assinado por Ramires Fonseca Silva e Paulo Sérgio Dantas Vasconcelos, o artigo O ensino de filosofia como construção implicada: atitude filosófica no contexto dos signos educativos defende que a filosofia só cumpre sua função formativa quando deixa de ser mero conteúdo e passa a operar como atitude, como prática viva do pensar no cotidiano escolar.

A partir de experiências na universidade e na educação básica, os autores sustentam que ensinar filosofia não é transmitir doutrinas prontas nem exigir a repetição de conceitos clássicos, mas criar condições para que o pensamento aconteça. Nesse sentido, o filosofar aparece como algo “grudado” à ação docente, um processo em devir, atravessado pelos signos que emergem da própria experiência educativa.

Para fundamentar essa proposta, o texto coloca em diálogo dois pensadores centrais do século XX: Martin Heidegger e Gilles Deleuze. De Heidegger, os autores recuperam a ideia de que ensinar é, antes de tudo, “deixar aprender”, recusando a lógica da instrução técnica e do pensamento calculador. Já em Deleuze, destacam a noção de que aprender é interpretar signos — encontros que forçam o pensamento a criar, e não a reconhecer o já dado.

O artigo critica frontalmente modelos escolares baseados na reprodução, na padronização e na resolução de “problemas que não pertencem aos estudantes”. Para os autores, esse tipo de ensino produz submissão intelectual e bloqueia a potência criadora do pensamento. Em contraposição, defendem uma prática pedagógica que valorize o estranhamento, a experimentação e a invenção conceitual.

Outro ponto central do texto é a noção de cuidado, inspirada na analítica existencial heideggeriana. Educar, nessa perspectiva, não é conduzir o outro por um caminho pré-definido, mas devolver-lhe a responsabilidade por pensar, escolher e criar sentido para sua própria experiência. O professor não aparece como aquele que “sabe mais”, mas como quem aprende junto — e, por isso mesmo, ensina melhor.

Ao final, o estudo propõe uma virada importante no debate educacional: tratar o ensino de filosofia como uma educação do pensamento, capaz de romper com a lógica instrumental dominante na escola e recolocar a pergunta filosófica no centro da formação humana. Em tempos de respostas rápidas, métricas de desempenho e soluções prontas, o artigo aposta justamente no contrário: na lentidão do pensar, no risco da pergunta e na potência do não saber.

Referência
SILVA, Ramires Fonseca; VASCONCELOS, Paulo Sérgio Dantas. O ensino de filosofia como construção implicada: atitude filosófica no contexto dos signos educativos. In: ENCONTRO NACIONAL DAS LICENCIATURAS (ENALIC), IX, 2025.

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