Um estudo recente publicado na Revista de Educação, Ciência e Saúde do Xingu revela que a pandemia da Covid-19 funcionou como um verdadeiro “raio-x” do Subsistema de Atenção à Saúde Indígena (SasiSUS), evidenciando tanto sua importância estratégica quanto fragilidades históricas ainda não superadas. A pesquisa analisou como o sistema respondeu à crise sanitária entre povos indígenas brasileiros e conclui que, embora tenha sido essencial para evitar um colapso ainda maior, o modelo enfrenta entraves estruturais que comprometem a garantia de um cuidado integral e intercultural.
Assinado por Gabriela Pixuna Dias, Alanne Ryllari da Silva dos Santos, Paula Gabriela Costa da Conceição Barbosa, Miguel Oliveira Entringe e Thales Daniel Rodrigues de Lima, o artigo baseia-se em uma revisão integrativa da literatura, conduzida segundo as diretrizes do PRISMA 2020. O levantamento examinou estudos publicados entre abril e junho de 2025 em bases como SciELO, PubMed, BVS e Scopus, selecionando quatro pesquisas que abordaram diretamente a atuação do SasiSUS durante a pandemia.
Os resultados mostram que problemas antigos, como saneamento precário, insegurança alimentar e sobrecarga das unidades de apoio, foram agravados pelo avanço da Covid-19. A interrupção da longitudinalidade do cuidado, especialmente no acompanhamento de doenças crônicas e ações coletivas de promoção da saúde, aparece como uma das consequências mais graves da reorganização emergencial dos serviços. Em muitos territórios, a atenção básica precisou concentrar esforços quase exclusivamente em casos suspeitos, vacinação e atendimentos urgentes.
Apesar disso, o estudo destaca que o SasiSUS teve papel central na resposta à pandemia, sobretudo por sua capilaridade territorial. A atuação dos Agentes Indígenas de Saúde foi apontada como decisiva para a comunicação com as comunidades, o enfrentamento da desinformação e a adaptação das ações sanitárias às realidades locais. Em diferentes contextos analisados, as unidades de saúde indígena funcionaram não apenas como espaços clínicos, mas também como locais de acolhimento, escuta e fortalecimento dos vínculos comunitários.
Outro ponto crítico identificado é a fragilidade da articulação entre o SasiSUS e a rede geral do Sistema Único de Saúde, especialmente nos níveis de média e alta complexidade. Em alguns casos, o acesso a serviços e insumos só ocorreu por meio de judicialização, revelando disputas institucionais e falhas nos mecanismos de regulação. O estudo também chama atenção para o impacto do racismo institucional e da invisibilização estatística, que dificultaram respostas mais rápidas e eficazes para populações indígenas, sobretudo em contextos urbanos.
Para os autores, a experiência da pandemia deixa lições claras. O fortalecimento da saúde indígena no Brasil passa não apenas por mais recursos, mas pela superação de um modelo assistencialista. Isso implica integrar políticas de saneamento, infraestrutura e conectividade, ampliar o uso de tecnologias como a telemedicina e, sobretudo, garantir o protagonismo dos povos indígenas na formulação e gestão das políticas públicas. Sem isso, alertam, o país seguirá repetindo vulnerabilidades já conhecidas diante de futuras emergências sanitárias.
Referências
DIAS, Gabriela Pixuna; SANTOS, Alanne Ryllari da Silva dos; BARBOSA, Paula Gabriela Costa da Conceição; ENTRINGE, Miguel Oliveira; LIMA, Thales Daniel Rodrigues de. Subsistema de saúde indígena e seus impactos durante a pandemia da Covid-19. Revista de Educação, Ciência e Saúde do Xingu, v. 1, n. 9, 2026. DOI: 10.65573/rescx.v1n9.0013.
