Um estudo publicado na Revista de Saúde Pública analisa os arranjos tecnológicos de regulação do acesso à saúde adotados no estado de São Paulo durante a pandemia de covid-19, destacando avanços, limites e desigualdades na ampliação do acesso a leitos e serviços de saúde no Sistema Único de Saúde (SUS). A pesquisa evidencia que, embora mecanismos de regulação tenham sido fundamentais para enfrentar a emergência sanitária, persistiram barreiras estruturais relacionadas à insuficiência de leitos, à distribuição desigual de recursos e às dificuldades de internação.
O estudo integra uma pesquisa financiada pelo Programa Pesquisa para o SUS (PPSUS) e utilizou métodos mistos para analisar a gestão do cuidado em rede no enfrentamento da pandemia. Os dados foram coletados por meio de questionário eletrônico aplicado a gestores de 645 municípios paulistas entre novembro de 2021 e fevereiro de 2022, com 255 respostas válidas, representando 39,5% dos municípios do estado. A análise combinou abordagens quantitativas e qualitativas, com foco nos processos de regulação hospitalar, ambulatorial e de urgência.
Os resultados indicam que a maioria dos municípios regulou os leitos de covid-19 por meio da Central de Regulação da Oferta e Serviços de Saúde do Estado de São Paulo (Cross), mas mais da metade enfrentou dificuldades de acesso, sobretudo pela insuficiência de leitos de enfermaria, suporte ventilatório e unidades de terapia intensiva. A criação de novos serviços, como centros de atendimento específicos e hospitais de campanha, foi amplamente adotada, assim como a implementação de fluxos diferenciados e protocolos múltiplos para viabilizar o atendimento.
A pesquisa também revela diferenças significativas entre municípios de distintos portes populacionais. Municípios de grande porte ampliaram o acesso principalmente por meio da expansão da estrutura hospitalar existente e de parcerias com a rede privada. Já os municípios de pequeno e médio porte recorreram a estratégias regionais, estruturas provisórias e articulação intermunicipal para garantir atendimento inicial e posterior transferência de pacientes, respeitando a lógica das redes regionais de saúde.
No campo da atenção ambulatorial, o estudo aponta redução expressiva na oferta de consultas especializadas, exames e cirurgias, ao mesmo tempo em que estratégias como telerregulação, monitoramento de filas e uso de ferramentas digitais foram incorporadas para mitigar os impactos da pandemia. Apesar dessas inovações, dificuldades na aquisição de insumos, na gestão da força de trabalho e na sustentabilidade financeira limitaram a efetividade das ações.
Como conclusão, os autores destacam que a pandemia evidenciou tanto a centralidade da regulação do acesso à saúde quanto as desigualdades históricas entre os setores público e privado. A experiência paulista demonstra que arranjos tecnológicos, articulação regional e governança compartilhada foram decisivos para enfrentar a crise, mas também revela a necessidade de fortalecer o SUS no período pós-pandêmico, com investimentos estruturais, planejamento regional e políticas públicas capazes de reduzir desigualdades no acesso aos serviços de saúde.
Referência (ABNT)
FREIRE, Mariana Prado; CHIORO, Arthur; TOFANI, Luís Fernando Nogueira; BIGAL, André Luiz; LOUVISON, Marília Cristina Prado. Arranjos tecnológicos de regulação do acesso à saúde: experiência do estado de São Paulo. Revista de Saúde Pública, São Paulo, v. 60, e5, 2026. DOI: 10.11606/s1518-8787.2026060006604.
