A polêmica da inteligência artificial na música costuma ser contada como uma guerra moral: ou a tecnologia “mata” a criação humana, ou “democratiza” a produção cultural. Só que a realidade é menos novela e mais engenharia. O que está em jogo — e o que artistas como Paul McCartney têm martelado — não é a existência da IA como ferramenta, mas o modelo de apropriação: treinar sistemas com obras protegidas sem autorização, sem transparência e sem remuneração, criando um mercado onde o risco fica com o criador e o lucro com a infraestrutura.
Em 2025, McCartney se juntou a mais de mil artistas no protesto do “álbum silencioso” Is This What We Want?, concebido como metáfora direta: se a regra virar “tudo pode ser minerado por IA, a menos que o artista consiga se defender”, o futuro pode ser um estúdio vazio. A própria página oficial do músico enquadrou o gesto como reação a mudanças pretendidas no Reino Unido que facilitariam treinar modelos com obras protegidas sem licença, e a imprensa britânica descreveu a faixa quase silenciosa como crítica à ideia de que criatividade pode ser sugada do ecossistema sem pagar a conta.
Só que, ao mesmo tempo, existe um segundo debate — mais pé no chão e menos apocalíptico — que passa batido quando a conversa vira “IA do mal”. É o uso da IA como tecnologia de produção assistida, um conjunto de métodos que ajudam a finalizar música (harmonia, arranjo, timbre, mix, guia vocal, variações) e, principalmente, a ressuscitar repertórios que estavam condenados à gaveta. E aqui vale uma distinção técnica importante: nem tudo que o público chama de “IA” é “IA generativa criando do nada”. Há usos que são restauração, separação de fontes e incremento de qualidade — como ocorreu no processo que permitiu isolar a voz de John Lennon de uma demo antiga para viabilizar a finalização de “Now and Then”, caso frequentemente citado como “IA na música”, mas que envolve mais recuperação de áudio do que “composição automática”.
A ciência por trás disso já é ampla e bem catalogada. Pesquisas de referência descrevem a geração musical com deep learning como um campo que opera em diferentes níveis: partitura/score (eventos simbólicos como MIDI), performance (nuances expressivas) e áudio (onda sonora), com múltiplas representações (piano roll, sequências de eventos, espectrogramas) e arquiteturas (RNNs, VAEs, GANs, Transformers). Em termos simples: há ferramentas que “pensam” a música como texto (sequência), outras como imagem (espectrograma) e outras como performance. Isso permite desde “harmonizar uma melodia” até “sugerir continuidades” e “gerar variações controladas”, com graus diferentes de intervenção humana.
E é exatamente nessa zona — a da co-criação humano–máquina — que a tecnologia vira ferramenta de resgate. O compositor não desaparece: ele muda de papel. Em vez de depender de estúdio caro, banda disponível e tempo infinito, passa a trabalhar como diretor de criação: define intenção estética, recorta, rejeita, reescreve, ajusta forma, escolhe timbres e toma decisões autorais. Até quando a IA sugere, quem assina a coerência é alguém de carne, osso e teimosia artística.
No Mato Grosso, esse “lado B” (no melhor sentido) aparece de forma concreta em projetos independentes que estão usando IA não para falsificar artista, mas para viabilizar catálogo. Antonio Archangelo, escritor, compositor e ex-guitarrista da banda de rock autoral Delunes, vem atuando nesse modelo como prática de produção: desenvolveu 14 personas artísticas para tirar do papel 150 canções em pouco mais de 90 dias, incluindo repertório da banda Sem Nau. Lançado pelo selo fictício Uivante Records, o projeto já soma 269 mil visualizações no TikTok, mostrando um efeito que a teoria cultural conhece bem: quando a barreira de produção cai, o “arquivo morto” vira circulação — e o público encontra música que antes nem existia para ser encontrada.
A banda cuiabana Filhos de Bento segue a mesma trilha de resgate, com foco em canções antigas que não tinham produção final. Um vídeo com a música “Eu Já Te Vi Pelada” atingiu 32.000 visualizações no TikTok em poucos dias de veiculação, evidência de que existe audiência para esse tipo de retomada quando a obra consegue atravessar o gargalo técnico que antes impedia o lançamento.
Criada pelo compositor Benedito Ribeiro que tem explorado a tecnologia como ferramenta de realização artística. Benedito compõe por hobby há quase vinte anos. Durante muito tempo, muitas de suas músicas permaneceram apenas em cadernos ou em gravações simples de voz e violão feitas no celular. Com o auxílio da IA, passou a transformar esses registros em produções completas, inserindo instrumentos, estruturando arranjos e finalizando versões para distribuição em plataformas de streaming.
Ainda assim, ele estabelece limites claros para esse uso. Não recorre à inteligência artificial para escrever letras ou criar melodias originais. Para ele, quando o núcleo criativo é delegado à máquina, o resultado tende a perder autenticidade. O valor, em sua visão, está no uso da tecnologia como coprodutora técnica — seja para gerar bases, experimentar timbres ou criar versões — mantendo intacta a autoria humana.
Esse contraste ilustra o centro da discussão contemporânea: a inteligência artificial pode representar tanto ameaça quanto ferramenta de democratização. Pode levantar questões legítimas sobre direitos autorais e exploração de catálogo, mas também pode permitir que canções esquecidas encontrem público, que artistas independentes reduzam custos de produção e que ideias antigas ganhem nova vida.
Claro: o mar não está calmo. Plataformas e indústria já lidam com a inundação de conteúdo totalmente sintético, inclusive por fraude. A Deezer, por exemplo, publicou números que mostram o crescimento acelerado de faixas totalmente geradas por IA no fluxo de uploads e anunciou medidas como detecção, rotulagem, exclusão de recomendações algorítmicas e combate a streams fraudulentos — uma resposta típica de ecossistema quando a produção vira abundante demais e a curadoria vira o novo campo de batalha.
E aqui está o ponto “profundão” (e útil): o mesmo motor tecnológico que permite o resgate de repertórios autorais também pode alimentar um mercado predatório de cópias, spam e exploração de catálogo alheio. Por isso, o debate maduro não é “proibir IA” nem “liberar geral”. É separar três coisas que muita gente mistura de propósito:
- Treinamento e direitos (quem pode usar o quê, com que licença, com que transparência);
- Uso criativo assistido (IA como instrumento de produção e finalização sob autoria humana);
- Distribuição e integridade do ecossistema (fraude, rotulagem, recomendação, remuneração).
Até a pesquisa em percepção do público reforça esse nó: como as pessoas avaliam música muda conforme rótulo, contexto e expectativa — e isso implica que transparência não é detalhe moral, é parte do “contrato” com o ouvinte.
No fim, a discussão que interessa para quem cria — especialmente na cena independente — é simples e espinhosa: como proteger autoria sem matar inovação. McCartney não está “contra tecnologia”; está contra virar matéria-prima grátis. E projetos como Sem Nau/Uivante Records e Filhos de Bento mostram o outro lado da moeda: quando a IA entra como ferramenta de estúdio expandido, ela pode funcionar como política informal de memória cultural, dando forma pública ao que antes era só rascunho privado. A briga, portanto, não é contra a IA — é contra a barbárie jurídica e econômica ao redor dela.
Referências
BRIOT, Jean-Pierre; HADJERES, Gaëtan; PACHET, François-David. Deep Learning Techniques for Music Generation — A Survey. arXiv, 2017. Disponível em: arXiv:1709.01620.
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McCARTNEY, Paul. Paul joins music industry protest against AI with silent song release. PaulMcCartney.com, 17 nov. 2025.
BOOTH, Robert. Paul McCartney joins music industry protest against AI with silent track. The Guardian, 17 nov. 2025.
DEEZER. Deezer reveals 18% of all new music uploaded to streaming is fully AI-generated. Deezer Newsroom, 16 abr. 2025.
MALIK, Aisha. Deezer starts labeling AI-generated music to tackle streaming fraud. TechCrunch, 20 jun. 2025.
DEEZER. Deezer confirms demonetization of up to 85% of AI-music streams due to fraud and moves to sell AI-detection technology. Deezer Newsroom, 29 jan. 2026.
THE VERGE. That AI-restored Beatles song won Grammy for Best Rock Performance. The Verge, 2025.
THE VERGE. The Beatles’ final song, restored using AI, is up for a Grammy. The Verge, 2024.
