Uma pesquisa recente aponta que, apesar dos avanços legais que exigem a valorização da história e da cultura indígena na educação brasileira, os livros didáticos ainda reproduzem representações limitadas e estereotipadas desses povos. O estudo “Didática colonizadora: como os livros escolares representam (e apagam) os povos indígenas”, realizado por pesquisadores da Universidade Federal de Catalão (UFCAT), analisou textos e imagens de uma coleção de Ciências amplamente utilizada em escolas públicas do município de Catalão, em Goiás.
A investigação adotou uma abordagem documental com análise quantitativa e qualitativa, examinando como os povos indígenas aparecem nos materiais didáticos à luz das diretrizes do Programa Nacional do Livro Didático (PNLD) 2020 e da Lei nº 11.645/2008, que tornou obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira e indígena nas escolas.
Os resultados mostram que as referências aos povos indígenas estão presentes em todos os volumes analisados, mas frequentemente aparecem em seções secundárias, textos complementares ou no manual do professor, em vez de integrarem o conteúdo principal dos capítulos. Na coleção estudada, cerca de 60% das ocorrências foram encontradas em seções complementares, o que tende a marginalizar o tema no processo de ensino.
Outro ponto destacado pela pesquisa é a forma como os indígenas são representados. As imagens e narrativas predominantes associam esses povos a atividades como agricultura, caça, pesca e vida comunitária, reforçando a ideia de que sua existência está restrita ao ambiente rural ou tradicional.
Segundo os autores, esse padrão reproduz um imaginário histórico construído desde os primeiros relatos coloniais sobre o território brasileiro. O estudo lembra que, já na Carta de Pero Vaz de Caminha, os povos originários foram descritos sob um olhar eurocêntrico, visão que ainda influencia representações contemporâneas em materiais escolares.
A análise também mostra a ausência quase completa de indígenas em contextos de protagonismo social contemporâneo. Nas obras analisadas, não há representações desses povos em áreas como política, ciência, artes, medicina ou liderança institucional, o que reforça uma imagem limitada de suas formas de participação na sociedade brasileira.
Embora existam avanços pontuais — como o reconhecimento de saberes tradicionais ligados à biodiversidade ou a ausência de sexualização das mulheres indígenas — o estudo conclui que os materiais ainda reproduzem o que os autores chamam de “didática colonizadora”, na qual os povos originários aparecem como figuras folclóricas, passivas ou pertencentes exclusivamente ao passado.
Para os pesquisadores, a distância entre as exigências legais e a prática editorial indica a necessidade de revisão crítica das coleções didáticas utilizadas nas escolas brasileiras. A inclusão de representações mais diversas e contemporâneas dos povos indígenas é vista como um passo essencial para promover uma educação plural, antirracista e comprometida com a valorização da diversidade cultural.
Referência
COSTA, Ana Claudia de Lucca; CHAVES, Paulo Henrique Soares; VIGÁRIO, Ana Flávia. Didática colonizadora: como os livros escolares representam (e apagam) os povos indígenas. Altus Ciência, v. 28, jan.–jul. 2026. DOI: 10.5281/zenodo.18747434.
