Inteligência artificial pode acelerar pareceres administrativos sem substituir servidores, aponta dissertação

A adoção de inteligência artificial (IA) na administração pública brasileira começa a ganhar contornos mais concretos, especialmente em áreas marcadas por alta carga burocrática. Dissertação defendida no Instituto Federal Goiano (IF Goiano) investiga como sistemas baseados em IA podem apoiar — sem substituir — a elaboração de pareceres administrativos na gestão de pessoas do Instituto Federal de Goiás (IFG).

O estudo parte de um problema bastante conhecido por quem vive o setor público: o tempo e o esforço cognitivo necessários para analisar processos, interpretar normas e produzir pareceres técnicos. Esse trabalho, intensivo em leitura e interpretação jurídica, impacta diretamente a celeridade e a consistência das decisões administrativas.

A pesquisa utilizou uma revisão sistemática da literatura, com base no protocolo internacional PRISMA, analisando mais de dois mil estudos científicos e selecionando 36 trabalhos relevantes. O resultado é claro: a inteligência artificial tem potencial para reduzir o tempo de análise de processos, automatizar tarefas repetitivas e aumentar a padronização técnica das decisões no setor público.

Mas calma — não é aquela narrativa simplista de “a máquina vai resolver tudo”.

O próprio estudo enfatiza que os ganhos não vêm da tecnologia isoladamente. Eles dependem de um conjunto de fatores institucionais, como governança de dados, infraestrutura tecnológica, capacidade organizacional e, principalmente, supervisão humana qualificada.

A partir dessas evidências, foi desenvolvido o sistema Aurora, um produto técnico-tecnológico voltado ao apoio na análise de processos administrativos. A ferramenta realiza leitura automatizada de documentos, extrai informações relevantes, busca referenciais normativos e gera minutas de parecer — tudo isso mantendo a decisão final sob responsabilidade do servidor público.

Ou seja: não é substituição, é ampliação de capacidade.

O modelo proposto organiza a adoção da IA em três dimensões interdependentes:
capacidade institucional, infraestrutura tecnológica e governança com validação humana obrigatória. Essa última talvez seja o ponto mais sensível — e mais importante — diante dos debates contemporâneos sobre ética, transparência e accountability no uso de algoritmos no Estado.

A dissertação também dialoga com um cenário mais amplo de transformação digital na gestão pública, no qual tecnologias como modelos de linguagem e sistemas de apoio à decisão passam a reconfigurar o papel do servidor. Em vez de executor de rotinas repetitivas, ele se torna um supervisor crítico de sistemas inteligentes.

O estudo conclui que a automação assistida pode ampliar a eficiência administrativa, reduzir a burocracia e fortalecer a padronização das análises — desde que integrada a mecanismos institucionais robustos e alinhada aos princípios da administração pública.

No fundo, a mensagem é quase provocativa:
o problema nunca foi só falta de tecnologia — sempre foi como o Estado organiza o seu próprio conhecimento.

E a IA, nesse caso, funciona menos como solução mágica e mais como espelho das capacidades (e limitações) institucionais.


Referência

ARAUJO, Amaury França. Inteligência artificial e inovação na administração pública: desenvolvimento de uma ferramenta de automação de pareceres no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Goiás (IFG). Dissertação (Mestrado em Administração). Instituto Federal Goiano, 2026.


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