O papel das academias de letras voltou ao centro do debate cultural após a circulação do artigo “O declínio das Academias”, assinado pelo jurista, escritor e acadêmico José Renato Nalini. No texto, Nalini questiona o distanciamento entre prestígio institucional e produção intelectual efetiva, além de recuperar críticas históricas dirigidas à própria Academia Brasileira de Letras.
A reflexão parte de uma constatação incômoda: enquanto alguns intelectuais reconhecidos evitam participar das academias por rejeitarem os rituais políticos e sociais envolvidos nas eleições internas, outros transformam a busca pelo “fardão” em verdadeira obsessão simbólica.
Segundo Nalini, há escritores e pensadores que “não se conformam com a necessidade de cortejar os eleitores” e afirmam simplesmente “não ter espírito acadêmico”. Em contraste, outros perseguiriam o reconhecimento institucional mesmo sem possuir, necessariamente, produção literária consolidada.
O artigo relembra que a Academia Brasileira de Letras, fundada em 1897 por Machado de Assis e um grupo de intelectuais, sempre conviveu com críticas internas, disputas e tensões relacionadas ao verdadeiro papel cultural das academias.
Para ilustrar esse cenário, Nalini recupera um duro trecho do “Diário Secreto” de Humberto de Campos, publicado em 1928. Na passagem, o escritor acusa a academia de ter sido invadida por pessoas sem compromisso efetivo com a literatura e afirma que muitos candidatos publicariam um único livro apenas para conquistar a consagração acadêmica.
“A Academia torna-se uma espécie de feudo da diretoria”, escreveu Humberto de Campos ao criticar o desinteresse pelas letras e o predomínio de relações mundanas sobre a produção intelectual.
O aspecto mais provocador do artigo talvez esteja justamente no contraste entre o ideal romântico das academias — como guardiãs da cultura, da memória e da produção literária — e a percepção contemporânea de que muitas dessas instituições perderam centralidade social.
Nalini reconhece que o “vaticínio” de Humberto de Campos não se concretizou totalmente, já que academias continuam produzindo livros e promovendo atividades culturais. Ainda assim, encerra o texto com uma ironia contundente: “Só falta mesmo é quem os leia”.
A frase toca num ponto delicado da cultura contemporânea: o aparente enfraquecimento do espaço social da literatura em meio à hiperaceleração digital, às redes sociais e à transformação da produção intelectual em ativo de prestígio mais do que de circulação efetiva de ideias.
O debate levantado pelo artigo também dialoga com uma questão mais ampla: qual o papel das instituições culturais tradicionais em uma sociedade marcada por novas formas de produção de conhecimento, autoria distribuída e democratização das plataformas de publicação?
Em tempos nos quais um texto pode viralizar mais em uma rede social do que em círculos acadêmicos tradicionais, cresce a pressão para que instituições culturais repensem não apenas sua composição, mas sua relevância pública.
Referência:
NALINI, José Renato. O declínio das Academias. Artigo de opinião, 2026.
*José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo.
