A Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de São Paulo aprovou a interconexão entre a planta de produção de biometano do aterro sanitário de Caieiras e a rede de distribuição da Comgás, em um projeto que pode transformar resíduos urbanos em uma das maiores operações de combustível renovável do país.
A decisão foi publicada no Diário Oficial do Estado nesta sexta-feira (8) e autoriza a celebração do Termo de Utilização de Interconexão (TUI) entre a distribuidora e a planta operada pela Solví Essencis Ambiental S.A., instalada no Aterro Sanitário de Caieiras, na Região Metropolitana de São Paulo.
O projeto prevê a construção de aproximadamente 5,3 quilômetros de rede e a implantação de uma Estação de Transferência de Custódia, chamada Bio-Citygate, estrutura que permitirá a integração direta do combustível renovável à malha de gás canalizado.
Hoje, o aterro produz cerca de 67 mil metros cúbicos diários de biometano, distribuídos por meio de gás natural comprimido transportado em carretas. Com a conexão à rede da Comgás, a expectativa é ampliar gradualmente essa capacidade até alcançar cerca de 400 mil m³/dia em 2030.
Segundo o cronograma apresentado, a primeira expansão deverá ocorrer em 2027, com acréscimo de 110 mil m³/dia. Em 2028, a produção poderá atingir aproximadamente 220 mil m³/dia.
O Aterro Sanitário de Caieiras é atualmente considerado o maior da América Latina e o terceiro maior do mundo. A unidade utiliza o gás gerado pela decomposição dos resíduos orgânicos para produção de biometano, combustível renovável que pode substituir parcialmente o gás natural fóssil.
A iniciativa é vista como estratégica para a transição energética brasileira e para o fortalecimento da economia circular, modelo que busca transformar resíduos em insumos reaproveitáveis.
Além do impacto ambiental, o projeto pode ampliar a competitividade do mercado de gás canalizado em São Paulo, permitindo que usuários do mercado livre e do mercado cativo tenham acesso crescente ao biometano utilizando a infraestrutura já existente no estado.
Estudos apontam que São Paulo possui potencial de oferta de aproximadamente 6,4 milhões de m³/dia de biometano no curto prazo. Com a integração à rede, o combustível renovável poderá circular por cerca de 25 mil quilômetros de gasodutos e alcançar aproximadamente 3 milhões de usuários em 180 municípios paulistas.
O avanço também reforça um movimento global de reaproveitamento energético de resíduos urbanos, em meio às pressões internacionais por redução de emissões de gases de efeito estufa e descarbonização da matriz energética.
Na prática, o que antes era apenas lixo passa a integrar o sistema energético estadual. Uma imagem curiosa — e bastante simbólica — de um século XXI em que até os aterros sanitários começam a disputar espaço no debate sobre segurança energética e sustentabilidade.
Referência:
AGÊNCIA REGULADORA DE SERVIÇOS PÚBLICOS DO ESTADO DE SÃO PAULO (ARSESP). Arsesp aprova interconexão de planta de biometano do aterro de Caieiras à rede de gás. Diário Oficial do Estado de São Paulo, 8 maio 2026.
