Enquanto parte da academia ainda debate se a inteligência artificial “ameaça” a educação, pesquisadores latino-americanos começam a discutir algo muito mais profundo: quem controla a linguagem, os discursos e as novas formas de produção de conhecimento no século XXI.
É nesse cenário que o Grupo de Estudos em Educação, Sexualidade, Tecnologias, Linguagens e Discursos (GESTELD/UNESP) passa a integrar oficialmente a divulgação e articulação acadêmica do VI Congreso Internacional “Desafíos y Propuestas en la Enseñanza de la Lengua/Lenguaje (ELM/ELE)”, promovido pela Universidad Autónoma de Nuevo León.
O evento será realizado entre os dias 28 e 30 de setembro de 2026, em formato virtual, reunindo pesquisadores da América Latina e de outras regiões para discutir os impactos contemporâneos das transformações linguísticas, culturais e tecnológicas no campo educacional.
Mas reduzir o congresso a um “evento sobre ensino de línguas” seria um erro.
O documento oficial da primeira circular deixa claro que a proposta do encontro ultrapassa os limites tradicionais da linguística e dialoga diretamente com temas centrais da contemporaneidade, como multimodalidade digital, narrativas em rede, análise do discurso, semiótica, literacidade, tecnologias educacionais e produção de conteúdos digitais.
Em outras palavras: trata-se de um congresso sobre os modos como as pessoas aprendem, comunicam-se, produzem sentidos e disputam poder em uma sociedade atravessada por plataformas digitais, algoritmos, inteligência artificial e novas arquiteturas da informação.
E é justamente aí que a presença do GESTELD ganha relevância.
Vinculado à Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, o grupo brasileiro vem consolidando pesquisas voltadas à educação crítica, cultura digital, autoria em rede, tecnologias, linguagem, subjetividade e formação docente. Em tempos de plataformas que transformam atenção em mercadoria e discursos em mecanismos de controle social, iniciativas acadêmicas latino-americanas passam a disputar também os sentidos políticos da educação contemporânea.
A aproximação entre UANL e UNESP-GESTELD sinaliza um movimento estratégico de fortalecimento das redes acadêmicas Sul-Sul, algo ainda raro em muitos programas de pós-graduação brasileiros, historicamente dependentes da legitimação intelectual europeia ou norte-americana.
E existe um dado simbólico importante nisso.
Enquanto boa parte dos debates internacionais sobre tecnologia educacional continua concentrada em soluções importadas, modelos corporativos e plataformas privadas, pesquisadores latino-americanos começam a construir circuitos próprios de reflexão sobre:
- educação pública;
- colonialidade digital;
- autoria;
- multiletramentos;
- inteligência artificial;
- comunicação crítica;
- pedagogias emancipatórias;
- produção de subjetividades em rede.
O próprio congresso assume explicitamente esse caráter interdisciplinar ao abrir espaço para pesquisas envolvendo:
- TIC, TAC e TEP;
- narrativas digitais;
- análise do discurso;
- multimodalidade;
- sociopragmática;
- texto e multimídia;
- linguagem e sociedade;
- produção discursiva digital.
Em um contexto em que a educação passa a ser pressionada por automação, vigilância algorítmica e padronização cognitiva, discutir linguagem deixa de ser apenas uma questão pedagógica. Passa a ser também uma disputa política sobre quem produz sentidos, quem organiza narrativas e quem define o que pode ou não circular como conhecimento legítimo.
A chamada para submissão de trabalhos segue aberta até 30 de junho de 2026, e os organizadores exigem resumos com objetivos, metodologia e síntese dos achados da pesquisa.
O formulário oficial de submissão pode ser acessado em:
Formulário oficial do congresso
Mais informações:
A expectativa é que pesquisadores brasileiros ligados à educação, linguagens, cultura digital e comunicação acadêmica participem ativamente do congresso, ampliando a presença da produção científica latino-americana em debates internacionais sobre tecnologia, discurso e transformação social.
Porque, no fim, talvez a grande questão não seja apenas como ensinar linguagens.
Mas quem ainda terá o direito de produzir linguagem num mundo governado por plataformas, métricas e inteligências artificiais.
Referência
UNIVERSIDAD AUTÓNOMA DE NUEVO LEÓN. Primera Circular – VI Congreso Internacional “Desafíos y Propuestas en la Enseñanza de la Lengua/Lenguaje”. Monterrey: Facultad de Filosofía y Letras, 2025.
