Por que o brasileiro fala apenas uma língua? Estudo aponta herança colonial por trás do monolinguismo nacional

Pesquisa sustenta que a dificuldade histórica do Brasil em formar cidadãos multilíngues não é resultado de incapacidade individual, mas de séculos de repressão linguística promovida pelo Estado e pelas elites nacionais

Em um mundo onde o domínio de múltiplos idiomas se tornou requisito cada vez mais valorizado para a mobilidade acadêmica, profissional e cultural, o Brasil continua sendo uma exceção curiosa. Apesar de possuir uma das maiores diversidades linguísticas do planeta, a maioria da população brasileira utiliza apenas uma língua em seu cotidiano.

Mas e se essa realidade não fosse consequência natural da história? E se o monolinguismo brasileiro fosse resultado de um projeto político construído ao longo de séculos?

Essa é a provocação apresentada pelo artigo “Colonialidade Linguística X Entitlement: Rompendo o Projeto Monolíngue no Brasil”, que analisa como diferentes políticas linguísticas contribuíram para consolidar o português como única língua legítima da nação, invisibilizando centenas de idiomas indígenas, africanos, de imigração e de comunidades tradicionais.

Segundo a pesquisa, compreender a atual relação dos brasileiros com as línguas exige olhar para processos históricos de colonização, construção do Estado nacional e produção de desigualdades sociais que continuam influenciando o sistema educacional até os dias atuais.

Um país que nasceu falando muitas línguas

Quando os portugueses chegaram ao território que hoje corresponde ao Brasil, encontraram uma realidade profundamente diversa do ponto de vista linguístico.

Centenas de povos indígenas utilizavam diferentes idiomas pertencentes a diversos troncos linguísticos. Ao longo dos séculos seguintes, a chegada de populações africanas escravizadas e, posteriormente, de imigrantes europeus e asiáticos ampliou ainda mais essa diversidade.

A pesquisa destaca que o Brasil não nasceu monolíngue. Pelo contrário: durante boa parte do período colonial, diferentes línguas coexistiram em espaços sociais, econômicos e culturais diversos.

Entretanto, a construção do Estado nacional brasileiro passou gradualmente a associar unidade política à unidade linguística, fortalecendo a ideia de que a existência de uma única língua seria condição necessária para a formação da identidade nacional.

O apagamento das línguas indígenas

Um dos aspectos centrais discutidos pelo estudo é o processo de marginalização das línguas indígenas.

Embora idiomas de origem tupi tenham desempenhado papel importante na comunicação durante os primeiros séculos da colonização, políticas posteriores passaram a privilegiar exclusivamente o português como instrumento de integração territorial e administrativa.

O resultado foi um longo processo de enfraquecimento de idiomas originários, muitos dos quais desapareceram ao longo dos séculos.

Segundo a pesquisa, esse apagamento linguístico não representou apenas a perda de formas de comunicação, mas também de conhecimentos, cosmologias, tradições culturais e modos de compreender o mundo acumulados por diferentes povos indígenas.

Quando falar outra língua virou suspeita

O artigo também revisita episódios menos conhecidos da história brasileira relacionados à repressão linguística.

Durante o Estado Novo de Getúlio Vargas, especialmente entre as décadas de 1930 e 1940, comunidades de origem alemã, italiana e japonesa sofreram restrições ao uso público de seus idiomas. Escolas, jornais e associações culturais passaram a ser monitorados ou proibidos em nome da nacionalização da população.

Para os autores, esse período consolidou a ideia de que a diversidade linguística poderia representar uma ameaça à unidade nacional.

A consequência foi o fortalecimento de uma cultura política que passou a enxergar o português não apenas como língua oficial, mas como marcador de pertencimento e legitimidade social.

O privilégio de aprender outras línguas

A pesquisa argumenta que os efeitos desse processo ainda podem ser observados no sistema educacional contemporâneo.

Embora o ensino de idiomas estrangeiros esteja presente nas escolas, o acesso efetivo à fluência continua fortemente associado às condições socioeconômicas da população. Cursos particulares, intercâmbios internacionais e certificações linguísticas permanecem concentrados entre grupos com maior renda.

Nesse cenário, a capacidade de falar outras línguas deixa de ser apenas uma habilidade comunicativa e passa a funcionar como mecanismo de diferenciação social.

Os autores utilizam o conceito de entitlement para discutir como determinados grupos possuem mais oportunidades de desenvolver competências linguísticas valorizadas pelo mercado de trabalho e pelas instituições acadêmicas.

Colonialidade linguística e desigualdade

O conceito central do artigo é o de colonialidade linguística.

Segundo a pesquisa, mesmo após o fim formal da colonização, permanecem estruturas que definem quais línguas possuem prestígio social, acesso institucional e reconhecimento público.

Essa lógica afeta não apenas línguas indígenas ou de imigração, mas também diferentes variedades do próprio português, frequentemente hierarquizadas de acordo com critérios sociais, regionais e econômicos.

A consequência é a produção de desigualdades simbólicas que se refletem em processos educacionais, oportunidades profissionais e participação social.

O que a escola pode fazer?

Para os autores, romper com o legado do monolinguismo exige repensar as políticas educacionais brasileiras.

Isso inclui valorizar a diversidade linguística existente no país, fortalecer a educação indígena bilíngue, ampliar o acesso ao ensino de idiomas e reconhecer que diferentes formas de falar representam patrimônios culturais legítimos e não obstáculos à aprendizagem.

A pesquisa defende que a pluralidade linguística deve ser compreendida como riqueza cultural e recurso estratégico para a inserção do Brasil em um mundo cada vez mais interconectado.

Uma questão que vai além da linguagem

Nas conclusões, o estudo sugere que a discussão sobre línguas não se restringe à comunicação.

Ela envolve disputas por reconhecimento, poder, identidade e cidadania. Ao questionar a naturalização do monolinguismo brasileiro, os autores convidam a sociedade a refletir sobre quem teve suas vozes preservadas pela história e quem foi sistematicamente silenciado ao longo da formação nacional.

Em um país que abriga mais de 270 línguas indígenas vivas, além de dezenas de idiomas de imigração e comunidades tradicionais, a pesquisa lança uma pergunta provocativa: o Brasil é realmente um país de uma única língua ou apenas aprendeu a esquecer as demais?


Fonte: GRILLI, Marina. Colonialidade Linguística X Entitlement: Rompendo o Projeto Monolíngue no Brasil. Revista D.E.L.T.A. – Documentação de Estudos em Linguística Teórica e Aplicada.

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