Pesquisa afirma que candidaturas indígenas femininas passaram a transformar o debate político ao conectar democracia, justiça climática e defesa dos territórios
As eleições de 2022 marcaram um ponto de inflexão na participação indígena na política brasileira. Mais do que ampliar o número de candidaturas, elas consolidaram um novo discurso político liderado por mulheres indígenas, que passou a articular direitos territoriais, democracia, crise climática e justiça socioambiental.
Essa é a principal conclusão do artigo “Aldear, mulherizar e reflorestar a política”, publicado na Revista de Antropologia da Universidade de São Paulo (USP). Segundo os autores, o crescimento da presença feminina indígena nas eleições representa não apenas um avanço da representatividade, mas também uma tentativa de transformar a própria concepção de política institucional no Brasil.
Mais candidaturas, mais protagonismo
O estudo mostra que, dos 186 candidatos autodeclarados indígenas registrados nas eleições de 2022, 85 eram mulheres, um crescimento de 193% em relação a 2018.
Apesar de apenas nove candidatos indígenas terem sido eleitos, a eleição de Sônia Guajajara e Célia Xakriabá para a Câmara dos Deputados foi considerada um marco histórico para o movimento indígena organizado.
Segundo os pesquisadores, essas candidaturas surgem como resposta ao aumento dos conflitos territoriais, ao fortalecimento das políticas anti-indígenas durante o governo Jair Bolsonaro e aos impactos da pandemia de Covid-19 sobre os povos originários.
“Aldear a política”
Um dos conceitos centrais analisados pelo artigo é a expressão “aldear a política”, utilizada pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib).
Segundo os autores, o objetivo não consiste apenas em ocupar cadeiras no Congresso Nacional, mas em levar para as instituições formas indígenas de compreender o território, a coletividade, a democracia e a relação entre sociedade e natureza.
Nesse sentido, a representação política deixa de ser apenas eleitoral e passa a incorporar modos próprios de organização social construídos historicamente pelos povos indígenas.
Mulheres colocam a crise climática no centro do debate
A pesquisa identifica que o protagonismo feminino alterou significativamente a agenda política do movimento indígena.
As campanhas passaram a relacionar diretamente a defesa dos territórios indígenas com o enfrentamento das mudanças climáticas, da perda da biodiversidade e da degradação ambiental.
Conceitos como “corpo-território”, “reflorestar mentes” e “cura da Terra” aparecem como elementos centrais da atuação política das mulheres indígenas, especialmente na Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade (Anmiga).
Política também pode ser cuidado
Segundo os autores, uma das principais contribuições dessas lideranças consiste em ampliar o significado tradicional da política institucional.
Ao incorporar práticas comunitárias, espiritualidade, ancestralidade, cuidado coletivo e proteção ambiental, o movimento indígena propõe uma visão de democracia que ultrapassa a lógica exclusivamente eleitoral.
Essa perspectiva aproxima as agendas indígenas de debates internacionais sobre justiça climática, direitos da natureza e ecofeminismo.
Representatividade vai além da presença
O artigo também chama atenção para uma questão importante: aumentar o número de candidatos indígenas não significa automaticamente fortalecer a representação dos povos originários.
Os pesquisadores observam que parte dos candidatos autodeclarados indígenas não possuía vínculos efetivos com organizações indígenas ou com suas comunidades, reforçando a importância da atuação de entidades como a Apib na construção de candidaturas reconhecidas pelos próprios povos.
Um novo projeto de país
Nas conclusões, os autores afirmam que as candidaturas indígenas femininas representam mais do que uma disputa por espaço político.
Elas expressam uma proposta de transformação democrática baseada na defesa dos territórios, na proteção ambiental, na valorização dos conhecimentos ancestrais e na construção de um Estado mais plural.
Nesse contexto, “mulherizar” e “reflorestar” a política tornam-se metáforas de um projeto que busca redefinir as relações entre sociedade, natureza e poder no Brasil contemporâneo.
Fonte da pesquisa
SHIRATORI, Karen; SZTUTMAN, Renato. Aldear, mulherizar e reflorestar a política: reflexões sobre as candidaturas de indígenas mulheres nas eleições de 2022. Revista de Antropologia, São Paulo: Universidade de São Paulo, v. 69, e215191, 2026. DOI: 10.11606/1678-9857.ra.215191.
