Obra organizada por pesquisadores do IFRS reúne estudos sobre formação integral, Indústria 4.0, cultura maker, inclusão, linguagem simples, assistência estudantil e políticas educacionais
A Educação Profissional e Tecnológica (EPT) não pode ser reduzida à preparação de mão de obra para atender às demandas imediatas do mercado. Essa é uma das perspectivas que atravessam o livro Percursos investigativos na Educação Profissional e Tecnológica: a construção de alternativas pela pesquisa, produzido a partir de pesquisas vinculadas ao Mestrado Profissional em Educação Profissional e Tecnológica do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul (IFRS).
Organizada por Andréia Modrzejewski Zucolotto, Liliane Madruga Prestes e Paula Porto Pedone, a publicação reúne investigações distribuídas pelas duas linhas de pesquisa do programa: Práticas Educativas em Educação Profissional e Tecnológica e Organização e Memórias de Espaços Pedagógicos na EPT.
Da cultura maker à linguagem simples
A diversidade dos temas mostra como a educação profissional contemporânea ultrapassa os limites do ensino estritamente técnico. Entre os assuntos abordados estão trabalho infantil e aprendizagem profissional, educomunicação, formação integral, Educação de Jovens e Adultos integrada à EPT, cultura maker, Indústria 4.0, educação alimentar e nutricional, formação docente e letramento informacional.
Outro eixo coloca inclusão e diversidade no centro da discussão. Os pesquisadores analisam, entre outros temas, a formação integral de estudantes-trabalhadores, a linguagem simples como ferramenta facilitadora da educação profissional e o Desenho Universal para a Aprendizagem, abordagem relacionada à ampliação da acessibilidade educacional.
A proposta é significativa porque desloca o debate da pergunta “como formar alguém para determinada profissão?” para uma questão mais ampla: que formação humana é necessária em uma sociedade atravessada por mudanças tecnológicas, desigualdades e transformações no mundo do trabalho?
Indústria 4.0 exige mais do que colocar tecnologia na escola
Um dos capítulos investiga especificamente a relação entre Indústria 4.0 e Educação Profissional e Tecnológica, analisando práticas docentes no Colégio Protásio Alves, em Porto Alegre. O estudo parte das profundas transformações provocadas pelas tecnologias contemporâneas nas relações entre trabalho, produção e formação profissional.
Os resultados apontam um alerta particularmente atual: incorporar novas tecnologias sem políticas de valorização docente e sem estruturação curricular pode acabar reproduzindo desigualdades tecnológicas e sociais. Entre as necessidades identificadas aparecem formação permanente dos professores, articulação institucional e integração curricular das tecnologias associadas à Indústria 4.0.
Ou seja, inovação educacional não se resume à aquisição de equipamentos — uma discussão que ganha ainda mais importância diante da rápida expansão da inteligência artificial e da automação no trabalho e na educação.
Educação profissional como política de inclusão
A obra também recupera experiências como o Programa Mulheres Mil, política voltada à formação profissional e tecnológica de mulheres em situação de vulnerabilidade social. Segundo o capítulo dedicado ao programa, o IFRS alcançará 750 vagas entre 2024 e 2026, distribuídas por diferentes campi da instituição.
A análise relaciona a iniciativa à formação humana integral e ao enfrentamento das desigualdades, destacando o potencial da educação profissional para ampliar autonomia, participação social e acesso a direitos.
Outros estudos avançam por temas como gestão democrática, juventudes no Ensino Médio Integrado, prevenção de riscos, integração entre ensino, pesquisa e extensão, gestão de contratos e políticas de assistência estudantil.
Pesquisa também é parte da formação profissional
O fio condutor do livro está justamente na defesa da pesquisa como elemento constitutivo da EPT. Em seu prefácio, a publicação situa esse debate em um cenário marcado por desigualdades sociais, precarização das relações de trabalho e pressões para que a educação responda prioritariamente às necessidades imediatas do mercado.
A alternativa defendida é uma formação que articule trabalho, ciência, cultura e tecnologia, mas que não perca de vista desenvolvimento humano, inclusão e justiça social.
O próprio título da publicação sintetiza essa perspectiva: não existe um único percurso para os desafios enfrentados pela educação profissional. A pesquisa pode diagnosticar problemas, mas também construir alternativas — transformando a EPT em espaço de produção de conhecimento e não apenas de transmissão de técnicas.
Fonte: Percursos investigativos na Educação Profissional e Tecnológica: a construção de alternativas pela pesquisa. Organização de Andréia Modrzejewski Zucolotto, Liliane Madruga Prestes e Paula Porto Pedone.
