Pesquisa publicada em outubro de 2026 analisa o sistema de vigilância inteligente de São Paulo, destaca resultados na localização de foragidos e pessoas desaparecidas e questiona riscos de discriminação algorítmica, falhas de identificação e violações à privacidade.
Por Redação Portal Archa
O uso de inteligência artificial para identificar criminosos, localizar pessoas desaparecidas e monitorar espaços públicos está transformando a segurança urbana em São Paulo. Entretanto, a expansão dessas tecnologias também levanta preocupações sobre privacidade, discriminação e proteção dos direitos fundamentais.
É o que aponta o estudo “Smart Sampa: um estudo sobre benefícios, falhas e impactos sociais”, publicado na edição de outubro de 2026 da Revista Fatec Zona Sul (Refas).
Assinada pelas pesquisadoras Julia Brugnari Pedro Longo, Isabela Ferreira Piedade, Fernanda Reis da Silva e Luciana Siqueira Rosseto Salotti, a investigação examina os benefícios operacionais e os riscos sociais do programa Smart Sampa, desenvolvido pela Prefeitura de São Paulo.
A pesquisa identifica avanços na utilização de câmeras inteligentes e no compartilhamento de informações entre órgãos públicos, mas alerta que a modernização tecnológica precisa ser acompanhada por mecanismos de fiscalização, transparência e responsabilização institucional.
Sistema utiliza inteligência artificial e milhares de câmeras
O Smart Sampa começou a ser estruturado em 2023, com o objetivo de integrar sistemas de videomonitoramento, bases de dados públicas e ferramentas de reconhecimento facial.
Segundo as informações oficiais examinadas pelas pesquisadoras, o programa contava com aproximadamente 25 mil câmeras no período documentado pelo estudo.
A tecnologia permite identificar possíveis correspondências entre imagens captadas nas ruas e registros de pessoas procuradas pela Justiça ou desaparecidas.
O sistema também utiliza leitura automatizada de placas de veículos e ferramentas capazes de emitir alertas sobre determinadas ocorrências.
De acordo com o artigo, as correspondências faciais identificadas pela inteligência artificial passam por uma etapa de verificação humana antes do encaminhamento às equipes de segurança.
Pesquisa destaca prisões e localização de desaparecidos
Entre os resultados positivos apresentados estão ocorrências divulgadas por órgãos públicos e veículos de comunicação.
O artigo menciona que, nos primeiros seis meses de operação do reconhecimento facial, 512 foragidos da Justiça foram capturados, segundo reportagem do Fantástico, publicada em janeiro de 2025.
Também registra a localização de um jovem desaparecido havia 28 dias, identificado com auxílio das câmeras e posteriormente encaminhado à família.
Durante o Carnaval de 2025, conforme informações da Secretaria Municipal de Segurança Urbana citadas no estudo, o programa contribuiu para a captura de 13 foragidos, dez prisões em flagrante e a localização de duas pessoas desaparecidas.
Para as pesquisadoras, esses episódios demonstram possibilidades concretas de utilização da inteligência artificial no apoio às atividades de segurança pública.
Entretanto, os números apresentados são provenientes de registros institucionais e reportagens consultados pelas autoras, não de uma avaliação independente da efetividade do sistema.
Reconhecimento facial pode produzir identificações equivocadas
Um dos principais pontos de atenção identificados pela pesquisa envolve a confiabilidade dos algoritmos.
Sistemas de reconhecimento facial podem apresentar erros associados à qualidade das imagens, às condições de iluminação, à atualização dos bancos de dados e a possíveis vieses presentes nos modelos utilizados.
As pesquisadoras destacam especialmente os riscos de falsos positivos e de impactos desproporcionais sobre pessoas negras e pardas, preocupação já identificada na literatura científica sobre vigilância algorítmica.
Uma identificação incorreta pode provocar abordagens policiais indevidas, constrangimentos e violações de direitos.
O estudo ressalta que a verificação humana e a existência de procedimentos para revisão de erros são fundamentais para reduzir esses riscos.
Vigilância e privacidade entram no debate
A ampliação do videomonitoramento também suscita questionamentos sobre os limites da atuação do Estado na coleta e utilização de informações pessoais.
O artigo discute a necessidade de regras transparentes sobre armazenamento de imagens, acesso aos dados, compartilhamento de informações e responsabilização por eventuais abusos.
As autoras mencionam uma recomendação do Ministério Público para a criação de mecanismos de ouvidoria e controle social relacionados ao programa.
Outro aspecto destacado é o risco de que a presença de sistemas de identificação em determinados espaços, inclusive unidades de saúde, produza constrangimentos ou desencoraje pessoas a procurar serviços públicos.
A investigação relaciona essas preocupações aos direitos constitucionais à privacidade, à liberdade de circulação e ao acesso universal aos serviços essenciais.
Cidades inteligentes também precisam proteger direitos
Para as pesquisadoras, a utilização de inteligência artificial na gestão urbana não deve ser avaliada exclusivamente pela quantidade de câmeras instaladas ou de ocorrências identificadas.
A transparência das decisões, a qualidade dos dados utilizados e a existência de mecanismos independentes de fiscalização também precisam integrar a avaliação dessas políticas.
O artigo defende a adoção de auditorias periódicas, supervisão humana, atualização contínua dos bancos de dados e participação da sociedade civil.
Essas medidas são apresentadas como condições para conciliar os objetivos de segurança pública com a proteção dos direitos fundamentais.
Estudo analisa documentos e literatura científica
A investigação possui abordagem qualitativa e exploratória, fundamentada em revisão bibliográfica, análise documental e consulta a fontes jornalísticas.
As pesquisadoras não realizaram entrevistas, observação direta das operações ou testes próprios de precisão dos algoritmos.
Por isso, os resultados devem ser compreendidos como uma análise crítica das evidências disponíveis, e não como comprovação experimental da eficácia do Smart Sampa ou da frequência de erros do sistema.
A pesquisa conclui que a inteligência artificial pode contribuir para modernizar a segurança pública, desde que acompanhada por governança democrática, transparência e mecanismos efetivos de proteção dos cidadãos.
O debate ultrapassa São Paulo e alcança outras cidades brasileiras que estudam incorporar reconhecimento facial e videomonitoramento às suas políticas de segurança.
A questão central apresentada pelo estudo é como utilizar tecnologias capazes de ampliar a segurança sem transformar a vigilância permanente em ameaça aos direitos da população.
Publicação científica
Título: Smart Sampa: um estudo sobre benefícios, falhas e impactos sociais
Autoras: Julia Brugnari Pedro Longo; Isabela Ferreira Piedade; Fernanda Reis da Silva; Luciana Siqueira Rosseto Salotti.
Periódico: Revista Fatec Zona Sul (Refas).
Volume: 13, número 1.
Publicação: Outubro de 2026.
Recebimento: Março de 2026.
Aceite: Julho de 2026.
DOI: https://doi.org/10.26853/Refas_ISSN-2359-182X_v13n01_01
Fonte: LONGO, Julia Brugnari Pedro et al. Smart Sampa: um estudo sobre benefícios, falhas e impactos sociais. Revista Fatec Zona Sul (Refas), v. 13, n. 1, out. 2026.
