Este livro aborda o trabalho nas fazendas do município de Rio Claro, no estado de São Paulo. Começa pela expropriação das terras novas escassamente povoadas, na segunda década do século XIX, e termina cem anos depois, quando a exaustão relativa dos solos levou ao fracionamento parcial das grandes lavouras, principalmente de fazendas de café, abarca, nessa região, de São Paulo, a transição do trabalho escravo para o livre. Em Rio Claro, iniciaram-se por volta de 1840 as tentativas de contratar imigrantes europeus para trabalhar na lavoura, e a imigração italiana maciça começou finalmente em 1888, ano em que a escravatura foi abolida. Em muitas fazendas, por vários anos, trabalhadores livres e escravos labutaram lado a lado e, depois da abolição, libertos em grande número continuaram a participar do regime das fazendas.
A transição para o trabalho assalariado foi, sem dúvida, o mais importante problema social do Brasil no século XIX. A região do-Oeste paulista — que se abre em leque desde Campinas para o Noroeste, alcançando Rio Claro e estendendo-se até Bauru e Ribeirão Preto, foi, a partir de 1850, aproximadamente, a de mais rápido crescimento econômico e populacional. O fim do trabalho servil e a experiência com trabalhadores livres nessa área exerceu, portanto, enorme influência sobre a opinido nacional, pois seus fazendeiros, evidendentemente seriam os alicerces das finan¢as do governo e constituiam os principais beneficidarios do sistema social tradicional que sustentava o império. Se a escravatura não tivesse êxito naquela região, ou se o trabalho livre se revelasse ali mais lucrativo, o restante do Brasil se curvaria então diante do inevitável.
Justifica-se o estudo de um único município. O município é a unidade política básica do Brasil e, no século passado, era em geral bastante extenso. Seus limites frequentemente tinham uma certa lógica, do ponto de vista geográfico ou econômico, ainda que fossem continuamente alterados por fazendeiros que, ao se encontrarem na oposição do política local, convenciam os legisladores provinciais a modificar a divido administrativa, de modo que suas propriedades passassem a fazer parte de municipios vizinhos.
Os registros históricos referentes ao regime de trabalho nas lavouras foram feitos em geral por servidores do governo municipal. Os cartórios – dois em Rio Claro – registravam contratos de todo tipo e transcreviam testamentos homologados, o registro de terras, cadastrava as vendas e arquivava os autos de processos, enquanto a Camara municipal conservava as atas de suas sessões e as cópias das cartas, dos lancamentos dos impostos e dos contratos. Muitos jornais circulavam no municipio, mas apenas de um deles existe uma coleção mais completa, desde 1901. Em arquivos da cidade de São Paulo é possivel encontrar números avulsos dos outros. No arquivo do estado volumosa correspondência é classificada segundo o municipio, e também no Museu Paulista o material avulso sobre Rio Claro está indexado pelo municipio.
Por razões de ordem prática, portanto, historiadores brasileiros muitas vezes decidiram basear seus estudos em um municipio, obtendo, assim, um sentido de interrelacionamento, de detalhes, de percepções e de motivos que se diluiriam e desapareceriam em contextos mais amplos. Na elaboracdo deste estudo, descobriu-se grande quantidade de outros documentos, principalmente de natureza politica e social, que poderdo eventualmente ser utilizados em outros estudos correlatos. Foram úteis também para este trabalho, pois forneceram indiretamente a confirmado de muitas afinnativas que aqui do feitas.
A experiência histórica de Rio Claro pode ser generalizada, em certos sentidos. Os municipios dependiam do corpo legislativo da província, cujo presidente deliberava sobre o orçamento, nomeava a maior parte dos funcionários estabelecia as politicas provinciais que eram da maior importância para a sorte das lavouras de Rio Claro. Os fazendeiros, em particular os mais ricos, não eram moradores de um único municipio, mas tinham interesses mais amplos, e cada vez mais se tornavam proprietários absenteistas. A massa da população era altamente mobil, e Rio Claro servia de base para os passantes que se trasladavam daqui para ali nas terras recém-ocupadas.
Rio Claro não foi selecionado por representar um lugar diferente ou tipico. Seria necessário, sem dúvida, introduzir certas adaptações, antes de aplicar o que se diz neste trabalho a outros municipios do Oeste paulista. Rio Claro revelou-se apropriado porque seus arquivos estavam preservados e até mesmo parcialmente catalogados, e sua Faculdade de Ciéncias e Letras acolheu cordialmente um pesquisador estrangeiro. O municipio oferecia muitos atrativos pois, sob muitas aspectos, tinha sido teatro de transições importantes: do regime colonial para o de sesmarias, do império para a república (sua sede foi uma das primeiras a criar um diretório do Partido Republicano) e da escravatura para o trabalho livre.
Seus fazendeiros encontravam-se entre os de maior influência na política provincial e mesmo nacional. Além disso, a sede municipal de Rio Claro, devido a circunstâncias geográficas, tornou-se um centro urbano de certo destaque, como centro ferroviário, industrial e de serviços, e sua economia serve de exemplo para a diversifica¢do que viria a se tornar uma extraordinária caracteristica do estado de São Paulo.
A historiografia do trabalho escravo e imigrante em geral adota a auto-imagem e a visão do mundo dos fazendeiros. Raramente tem sido coerente e consciente a necessária separação entre o hístoriador e os servidores que elaboram os documentos e que, neste caso, eram direta ou indiretamente empregados dos fazendeiros. Esta obra, pretende manter uma posição crítica. Agindo desta forma, ferirá sem dúvida algumas suscetibilidades, que paradoxalmente considerarão esta atitude como pouco objetiva, na suposição de que nas sociedades mais tradicionais as ideologias da elite constituiam paradigmas da ordem social ou, pelo menos, não eram abertamente contestadas.
É preciso admitir que a preocupação do autor também tem seu fundamento ideológico. O povo tem direito à sua própria história. Que a terra, o trabalho e o lucro tivessem sido expropriados tem menor reflexão do que o fato de que a expropriação tivesse sido Ieegitima, e Iegitimada de tal maneira que os que sofreram a expropriagdo sairam humilhados.
Por ocasido de um congresso que se realizou no Rio de Janeiro em 1950 a fim de estudar a posição do negro na sociedade brasileira, um dos participantes desaprovou enfaticamente o estudo da história da escravidão. “Precisamos é esquecer esse tratamento brutal, para não sentirmos ódio. Para que o Congresso vai lembrar que meu pai apanhou, a minha mãe apanhou. Por qué?”
Por motivos cientificos, declarou o presidente para mostrar aos brancos os seus erros, disseram outros participantes; para mostrar que os negros, apesar de tudo, sempre tinham cooperado, para mostrar que a situação melhorara. A angústia do orador era insuportável, e a reunião teve de ser suspensa apressadamente. A resposta deveria ter sido: Seu pai e sua mde merecem ser recordaz{os porque sofreram, e ainda mais porque resistiram e triunfaram. A história não revela submissão e resignação, mas sobrevivência e revide. O estudo do trabalho nas grandes lavouras tem implicações igualitárias, mas o que se pretende – é preciso deixar bem claro antecipadamente — é corrigir perspectivas que foram distorcidas mediante argumentações especiais, e não, introduzir distorções onde não as havia.*
O autor recebeu dos rioclarenses a melhor das acolhidas. Colocaram a meu dispor os documentos existentes, mesmo quando isso representava sérios transtornos pessoais. Desejo agradecer em particular aos Srs. Tomaz Macha, Sérgio Pereira e Osório Morato Filho, tabeliães; ao Sr. José Machado, secretário da Câmara de Vereadores; e aos Srs. Oscar Arruda Penteado e José Constante Barreto, historiadores do município.
Na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Rio Claro encontrei o apoio valioso de membros dos Departamentos de História, Geografia e Ciência Politica. Um agradecimento especial deve ser dado à Prof º Jeanne Berrance de Castro, cujo empenho na organização do Museu Histórico local foi de fundamental importância para este trabalho. Em São Paulo, os funcionários do Arquivo Público do Estado de São Paulo e da Biblioteca Municipal foram incansáveis na localização e microfilmagem de documentos. Graças a interveniência do Prof. Sérgio Buarque de Holanda e da Profº Emilia Viotti, e de seus alunos, Profª Alice Canabrava e Eddie Stols, abriram-se as portas de importantes coleções oficiais e propriedades particulares.
Colegas pesquisadores, os Profs. Samuel Baily, Robert Mattoon, Norris Lyle, Joseph Love, Thomas Holloway, Thomas Flory e Rae Flory localizaram documentado indispensável para este trabalho. Os Profs. Gabriel e Clélia Bolaffi, meus bons amigos, estiveram sempre à mão para apresentações ao mundo intelectual de São Paulo. Ms. Judith Dean concordou com a mudança, constantes viagens e a interrupção de seus proprios estudos a fim de acompanhar o autor, que expressa deste modo sua gratidão e admiração. Partes de dois capitulos deste livro foram apresentadas no Seminário da Universidade de Colúmbia sobre o Brasil, cujos participantes e presidente, Prof. Douglas Chalmers, ofereceram valiosas sugestões.
O Social Science Research Council of New York e a Universidade de Texas concederam recursos para a pesquisa. Uma segunda viagem a São Paulo, patrocinada pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Assis, permitiu-me completar o livro, já quase pronto, com nova documentação. Este trabalho foi levado a efeito no Brasil durante um ano de grande agitação politica, quando parecia que o governo militar abandonaria seu caráter de autoritarismo, em face da oposição, inclusive por parte de Universidades.
O autor não se sentia à vontade com sua relativa imunidade, e lamentou o prejuizo causado ao progresso dos estudos históricos no Bra- sil. Muitos colegas perderam seus cargos e foram encarcerados por terem exercido honestamente e com dignidade os seus direitos de cidadão e as responsabilidades de seu oficio. Temos uma dívida especial de inspiração para com Caio Prado Júnior, que foi para a prisão numa idade em que deveria ter ido para a cátedra vitálicia. A ele e a outros corajosos homens de letras este livro é dedicado.
Rio Claro: Capítulo 1 – A Expropriação da Terra – https://wp.me/p6BKKK-2Tx
REFERÊNCIA
Rio Claro: um sistema brasileiro de grande lavoura, 1820-1920. Autor: Warren Dean. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977.
Este conteúdo apresenta resumos e comentários baseados no livro “Rio Claro: Um Sistema de Grande Lavoura 1820-1920” (Warren Dean, 1977). Destina-se a fins educativos e de pesquisa, sem fins lucrativos. Recomendamos a aquisição e leitura da obra completa.

Por especial gentileza, onde posso encontrar esse livro?
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