“Aldear a saúde”: proposta convida o SUS a aprender com as medicinas indígenas

O sanitarista Ricardo Luiz Narciso Moebus, professor da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), lança em seu artigo “Saúde indígena e indigenização da saúde: aldear a saúde” um chamado à reinvenção do cuidado no Brasil. Publicado na revista Interface (Botucatu), o texto propõe que a saúde indígena deixe de ser um subsistema marginal e se torne um modelo inspirador de um “Supra Sistema” plural, mestiço e contracolonial.

A reflexão parte da constatação das fragilidades históricas e políticas do Subsistema de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas (Sasisus), criado pela Lei Arouca (Lei nº 9.836/1999), mas ainda incapaz de enfrentar o clientelismo e a descontinuidade das políticas públicas. Moebus observa que o país segue preso entre a falta de estrutura e o retrocesso conservador — um impasse que perpetua o abandono sanitário de centenas de povos originários.

Inspirado em Sérgio Arouca, Michel Foucault e Bruno Latour, o autor propõe uma “saúde simétrica”, em que o saber biomédico ocidental dialogue de igual para igual com os saberes e práticas das medicinas indígenas brasileiras. Em vez de “levar saúde” para os povos indígenas, o artigo defende fazer saúde com eles, reconhecendo suas cosmologias, formas de cura e modos próprios de produção da vida.

“É preciso inventar uma saúde mestiça contracolonial — um cuidado vivo em ato — que não seja imposição tecnológica ou apagamento cultural”, escreve o autor.

A proposta de “indigenizar a saúde” vai além de reconhecer especificidades culturais: é um convite para reconfigurar o próprio SUS como um sistema intercultural, capaz de acolher a diversidade epistêmica e cosmopolítica do país. Nessa perspectiva, Moebus vislumbra um Estado plurinacional, pluriétnico e pluriepistêmico, em que o cuidado se torne expressão de resistência e não de dominação.

O texto conclui com uma provocação política: sem romper com a necropolítica que domina o Estado brasileiro, nenhuma reforma sanitária será realmente emancipadora. Aldear a saúde, portanto, é repolitizar o cuidado, devolver-lhe alma e território.


Referência (ABNT):
MOEBUS, Ricardo Luiz Narciso. Saúde indígena e indigenização da saúde: aldear a saúde. Interface (Botucatu), v. 29, e250537, 2025. DOI: 10.1590/interface.250537.

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