Apesar do aumento do acesso à internet e da presença crescente de dispositivos digitais nas escolas, a integração efetiva das Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC) na educação básica brasileira ainda enfrenta obstáculos estruturais e pedagógicos. É o que aponta o estudo “Competências Digitais na Educação Básica: Desafios e Oportunidades na Adoção das TIC no Brasil”, desenvolvido por pesquisadores da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE).
A pesquisa analisou os microdados da pesquisa TIC Educação 2022, adotando uma abordagem quantitativa que combinou análises descritivas, bivariadas e modelos de regressão logística para compreender quais fatores influenciam o uso das tecnologias digitais no ambiente escolar. O objetivo foi identificar de que maneira características de professores e estudantes impactam a incorporação pedagógica das tecnologias nas escolas brasileiras
Os resultados indicam que a formação continuada em tecnologias digitais é um dos fatores mais decisivos para que professores utilizem as TIC de maneira pedagógica. Educadores que passaram por capacitação específica apresentam quase o dobro de probabilidade de integrar ferramentas digitais às práticas de ensino.
A pesquisa também identificou quatro perfis de integração tecnológica entre docentes. O grupo mais numeroso é o perfil Instrumental, que representa 46,3% dos professores e utiliza tecnologias de forma básica, principalmente como apoio a tarefas tradicionais. Em seguida aparecem os perfis Básico (27,8%), Integrado (20,8%) e Transformador (5,1%), sendo este último caracterizado por práticas pedagógicas inovadoras que exploram plenamente o potencial educativo das tecnologias digitais.
Outro dado revelador do estudo é o fenômeno denominado pelos autores de “aprendizagem invertida”. Segundo a análise, 48,3% dos professores relatam aprender sobre tecnologia com seus próprios alunos, evidenciando que estudantes frequentemente dominam ferramentas digitais antes mesmo de receberem orientação pedagógica formal sobre seu uso.
O estudo também destaca um contraste significativo entre acesso digital e formação crítica. Embora 93,6% dos estudantes tenham acesso à internet em casa, apenas 50,9% recebem orientações sobre uso seguro e responsável da rede, o que evidencia lacunas na formação digital oferecida pelas escolas.
Além disso, persistem desigualdades regionais importantes. Em algumas regiões do país, a infraestrutura e as oportunidades de uso pedagógico das tecnologias variam significativamente entre escolas urbanas e rurais. Um dado curioso observado na pesquisa é que, na região Sul, escolas rurais chegam a superar as urbanas em 8,3 pontos percentuais em determinados indicadores de uso educacional das tecnologias.
As conclusões do estudo indicam que a integração das TIC ainda não alcançou níveis amplos e equitativos na educação básica brasileira. Apenas 25,9% dos professores demonstram práticas compatíveis com competências digitais mais complexas, alinhadas às diretrizes da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) voltadas à computação e cultura digital.
Para os pesquisadores, os resultados mostram que ampliar o acesso a equipamentos e internet é apenas parte do desafio. O avanço real depende de políticas educacionais mais contextualizadas e de programas de formação docente que desenvolvam competências digitais críticas, capazes de transformar o uso das tecnologias em práticas pedagógicas inovadoras e socialmente relevantes.
Referência
COSTA, Thyago José Oliveira; RODRIGUES, Rodrigo Lins; FALCÃO, Taciana Pontual. Competências digitais na educação básica: desafios e oportunidades na adoção das TIC no Brasil. Revista Foco, 2026.
