Comunicação, plataformas e disputa simbólica: revista da USP coloca teoria crítica no centro do debate digital

Em um momento histórico marcado por algoritmos, radicalização política, plataformização da vida social e disputas narrativas em larga escala, a nova edição da revista MATRIZes reúne pesquisadores nacionais e internacionais para discutir os rumos contemporâneos da comunicação, da cultura digital e das mediações tecnológicas.

Publicada pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da Universidade de São Paulo, a edição de janeiro a abril de 2026 da revista apresenta um dossiê intitulado “Novas Perspectivas em Teorias da Comunicação”, reunindo reflexões que atravessam temas como feminismo midiático, plataformas digitais, trabalho comunicacional, imperialismo cultural, extrema-direita online, alfabetização midiática e metaverso.

O editorial da publicação já estabelece o tom da edição ao afirmar que os estudos da comunicação precisam compreender as “tonalidades” e complexidades do presente digital, num cenário em que mídia, política, subjetividade e economia se entrelaçam de maneira cada vez mais intensa.

Entre os artigos de destaque está o texto “Plataformas digitais: sistema de aparelhos e estruturas hegemônicas de mediação social”, de Pablo Nabarrete Bastos, que propõe uma leitura crítica da plataformização como forma contemporânea de hegemonia social e econômica. O estudo articula diferentes vertentes da Economia Política da Comunicação para analisar como plataformas digitais passaram a operar como estruturas centrais de mediação da vida contemporânea.

A discussão dialoga diretamente com um dos maiores conflitos do século XXI:
quem controla os fluxos de informação controla também os imaginários sociais, os afetos políticos e os próprios mecanismos de circulação da verdade pública.

Outro texto relevante é “Os dados do trabalho dos profissionais da comunicação no contexto da teoria do valor”, de Roseli Figaro, João Augusto Moliani e Camila Acosta Camargo. O artigo debate como a datificação das atividades comunicacionais transforma trabalho humano em ativo econômico para plataformas digitais.

Em outras palavras: o usuário deixou de ser apenas consumidor.

Virou matéria-prima.

A edição também dedica atenção à radicalização política em ambientes digitais.

No artigo “Construindo ‘um braço armado’: o papel dos fóruns da extrema-direita na obtenção de armas de fogo”, pesquisadores analisam fóruns digitais brasileiros ligados à extrema-direita e demonstram como esses espaços funcionam como ambientes de radicalização, circulação de discursos violentos e compartilhamento de informações para aquisição de armamentos.

O estudo chama atenção para o funcionamento de imageboards e fóruns menos visíveis das redes tradicionais, mostrando que parte significativa da radicalização contemporânea ocorre justamente em ambientes opacos, subterrâneos e pouco monitorados.

A publicação ainda traz uma análise sobre alfabetização midiática e informacional no Brasil, Espanha e México, evidenciando o atraso das políticas públicas diante do avanço da desinformação e da manipulação algorítmica.

O artigo defende que formar cidadãos críticos diante das mídias digitais deixou de ser apenas pauta pedagógica.

Tornou-se questão democrática.

Em outro eixo, o texto “É virtual, mas o impacto será real: a face perversa do Metaverso” analisa criticamente o discurso publicitário da Meta e as promessas de imersão digital total. Os autores argumentam que o metaverso é vendido como uma experiência sem limites, baseada numa lógica de apagamento das fronteiras entre real e virtual.

A edição também recupera discussões fundamentais dos estudos feministas da mídia.

No artigo de Milly Buonanno, “Um novo paradigma no campo dos estudos feministas de televisão”, a pesquisadora revisita a invisibilização histórica das mulheres na construção da televisão e dos meios de comunicação.

O texto argumenta que a historiografia tradicional apagou o protagonismo feminino nos bastidores da produção midiática e propõe uma reconstrução crítica dessa memória.

Há também uma dimensão profundamente política atravessando toda a edição:
a percepção de que comunicação não é apenas transmissão de informação.

É disputa de poder.

É produção de realidade.

É fabricação de subjetividades.

E talvez por isso a revista acerte ao abandonar qualquer ingenuidade tecnocrática sobre o universo digital.

Os textos reunidos demonstram que algoritmos, plataformas e ambientes digitais não são neutros.

Eles organizam visibilidade.
Produzem silêncios.
Distribuem autoridade.
E moldam a própria experiência contemporânea da democracia.

Num tempo em que a política se tornou também uma guerra de narrativas, compreender comunicação deixou de ser tema periférico das ciências humanas.

Virou questão central para entender o presente.

Referência:

GUIMARÃES, Luciano; SILVA, Wagner Souza e. Matrizes, matizes e tonalidades nos estudos da comunicação. MATRIZes, Revista do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da Universidade de São Paulo, São Paulo, v. 20, n. 1, jan./abr. 2026. DOI: https://doi.org/10.11606/issn.1982-8160.v20i1p1-6.

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