Tuberculose: tratamento supervisionado reduz abandono, mas ainda falha na prática do SUS, aponta revisão

O Tratamento Diretamente Observado da tuberculose no Brasil pode reduzir o abandono terapêutico, mas sua efetividade ainda depende da organização da Atenção Primária, do vínculo com o paciente e da atuação territorial das equipes de saúde. É o que aponta revisão integrativa publicada em 2026, com foco no Sistema Único de Saúde.

O estudo analisou como o Tratamento Diretamente Observado, conhecido como TDO, vem sendo implementado no país, especialmente na Atenção Primária à Saúde e na Estratégia Saúde da Família. A revisão incluiu estudos quantitativos, qualitativos e mistos sobre adesão, cura, abandono e continuidade do cuidado.

Segundo os autores, as evidências indicam que o TDO efetivamente realizado está associado à redução do abandono, sobretudo quando articulado ao trabalho dos Agentes Comunitários de Saúde, ao vínculo entre profissional e usuário, ao suporte social e à organização multiprofissional do cuidado.

O problema, porém, está na distância entre o TDO registrado e o TDO realmente executado. A revisão identificou cobertura desigual, fragilidades nos registros, baixa fidelidade de implementação e divergências entre o que aparece nos sistemas de informação e a prática supervisionada no território.

Em alguns estudos analisados, pacientes classificados como acompanhados por TDO recebiam medicamentos para autoadministração por vários dias, sem observação direta regular da tomada. Esse descompasso compromete a avaliação da política pública e dificulta o controle da doença.

A tuberculose permanece como problema relevante de saúde pública. A revisão lembra que, apesar da ampliação do TDO em algumas cidades brasileiras, houve contextos com queda na taxa de cura e aumento do abandono, mostrando que a estratégia depende da forma como é organizada e sustentada no território.

Entre as principais barreiras estão vulnerabilidade social, uso problemático de álcool e drogas, situação de rua, coinfecção por HIV, dificuldade de transporte, violência territorial, falta de recursos humanos e fragilidades na articulação entre serviços.

O estudo também mostra que o abandono foi maior entre pessoas que não realizaram TDO. Em análise nacional citada pela revisão, a prevalência de abandono foi de 20,1% entre quem não passou pelo tratamento observado, contra 8,6% entre os submetidos à estratégia.

A atuação dos Agentes Comunitários de Saúde aparece como um dos fatores mais importantes para o sucesso do acompanhamento. Em experiências analisadas, o TDO vinculado aos ACS esteve associado a melhor adesão e menor abandono, principalmente por aproximar o cuidado da realidade concreta do paciente.

A revisão conclui que o TDO não deve ser tratado apenas como vigilância da tomada do remédio, mas como dispositivo longitudinal de cuidado, equidade e vigilância em saúde. Para funcionar, exige planejamento, intersetorialidade, qualificação permanente das equipes e fortalecimento real da Atenção Primária.

No centro do debate está uma constatação dura: no Brasil, curar tuberculose não depende apenas de remédio. Depende também de território, vínculo, comida, transporte, escuta e SUS funcionando de verdade.

Referência

MITOUSO, Vinícius Soares et al. Tratamento Diretamente Observado da Tuberculose no Brasil: revisão integrativa com foco na Atenção Primária e no SUS. 2026. DOI: 10.66104/exq68b02.

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