Enquanto o debate sobre “smart cities” costuma girar em torno de carros autônomos, sensores e inteligência artificial, um grupo de pesquisadores da Universidade Federal do Ceará decidiu atacar um problema muito mais básico — e talvez muito mais urgente: a incapacidade de muitos municípios brasileiros de gerenciar corretamente a própria zeladoria urbana.
O artigo “Um framework para apoiar especialistas no gerenciamento de ativos na zeladoria pública em cidades inteligentes” propõe um sistema digital capaz de organizar ordens de serviço relacionadas a problemas urbanos como buracos em vias, iluminação pública defeituosa, vazamentos, danos em equipamentos urbanos e ocorrências que afetam diretamente a mobilidade e os serviços essenciais das cidades.
O estudo foi desenvolvido por Brayan Anderson Vieira Santos, Billy Grahan Alves Rodrigues, Matheus Santos Soares e Mayrton Dias de Queiroz, todos vinculados à UFC, e parte de uma constatação simples: em muitas cidades brasileiras, sobretudo as de pequeno porte, a gestão de ativos públicos ainda funciona com planilhas, anotações manuais e comunicação fragmentada entre população, fiscais e equipes de campo.
Na prática, isso significa que problemas urbanos demoram para ser identificados, priorizados e resolvidos. O resultado é desperdício de recursos públicos, baixa transparência administrativa e serviços precários para a população.
A solução proposta pelos pesquisadores é um framework integrado baseado em aplicações web, geolocalização, APIs RESTful, bancos de dados relacionais e mapas interativos. O sistema conecta cidadãos, gestores, inspetores e equipes operacionais em tempo real.
O funcionamento lembra aplicativos de mobilidade e delivery, mas aplicado à administração pública. Pelo chamado “App Cidadão”, qualquer morador pode registrar uma ocorrência urbana enviando descrição, fotos e localização GPS do problema. Essas informações geram automaticamente uma ordem de serviço para análise da gestão pública.
Depois disso, fiscais verificam a existência do problema em campo utilizando um aplicativo próprio, enquanto equipes operacionais recebem rotas inteligentes para execução das demandas. Todo o processo é acompanhado em mapas digitais que exibem densidade territorial das ocorrências, status dos serviços e rotas de inspeção.
As telas do sistema apresentadas no artigo mostram uma tentativa clara de transformar a zeladoria urbana em algo semelhante a um centro de operações inteligente. Em vez da lógica burocrática tradicional — lenta, reativa e fragmentada — o framework opera em fluxo contínuo de dados georreferenciados.
Mas talvez o aspecto mais interessante da pesquisa esteja no algoritmo de otimização de rotas criado para os inspetores urbanos. O sistema utiliza algoritmos clássicos da computação, como A*, BFS, DFS e Busca de Custo Uniforme, combinados a uma abordagem heurística inspirada em algoritmos genéticos.
Em termos simples: o framework tenta encontrar as melhores rotas possíveis entre diferentes ativos urbanos, reduzindo deslocamentos, tempo operacional e custos públicos. O sistema ainda utiliza técnicas de “memoization”, armazenando distâncias já calculadas para evitar recálculos desnecessários e acelerar o processamento.
Os testes computacionais realizados na cidade de Russas, no Ceará, mostraram que o algoritmo A* com distância haversiana apresentou o melhor desempenho entre todas as estratégias avaliadas, conseguindo gerar rotas eficientes em menos de um minuto, mesmo em cenários complexos.
Os resultados também revelaram algo importante para gestores públicos: algoritmos tradicionais de força bruta, como busca em largura e profundidade, tornam-se inviáveis em cenários urbanos maiores, chegando a ultrapassar 40 minutos de processamento em algumas simulações.
Além do aspecto técnico, o artigo toca num ponto político cada vez mais central: transparência. Ao integrar cidadãos ao sistema de manutenção urbana, o framework cria mecanismos de auditoria pública e rastreabilidade das ações do poder público.
Num país onde muitas vezes o buraco na rua demora menos para virar meme do que para ser resolvido, talvez a ideia de cidade inteligente precise começar menos pela estética futurista e mais pela capacidade básica de escutar, responder e prestar contas.
Porque antes do carro voador, existe a lâmpada queimada da esquina.
Referência
SANTOS, Brayan Anderson Vieira et al. Um framework para apoiar especialistas no gerenciamento de ativos na zeladoria pública em cidades inteligentes. Lumen et Virtus, v. XVII, n. LX, p. 1–23, 2026. DOI: 10.56238/levv17n60-030.
