Relatório de mais de 1.300 páginas afirma que morte do ex-presidente não foi acidente, relaciona o caso à perseguição política do regime militar e identifica dezenas de irregularidades na investigação oficial
Por décadas, a morte de Juscelino Kubitschek foi apresentada aos brasileiros como uma tragédia de trânsito ocorrida na Via Dutra em uma tarde de domingo de agosto de 1976. Agora, quase meio século depois, uma comissão oficial do Estado brasileiro afirma ter chegado a uma conclusão radicalmente diferente: JK não foi vítima de um acidente comum, mas de uma ação ligada à perseguição política promovida pela ditadura militar.
A decisão foi anunciada pela Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP), órgão vinculado ao Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, após uma investigação considerada uma das mais extensas já realizadas sobre um episódio do período autoritário brasileiro.
O relatório reúne mais de 1.300 páginas, nove anexos, doze pareceres jurídicos, cerca de 6.450 páginas de documentação complementar e 699 elementos probatórios analisados pela equipe de investigação.
O resultado levou a comissão a reconhecer oficialmente que a morte do ex-presidente foi “não natural, violenta, causada pelo Estado brasileiro no contexto da perseguição sistemática à população identificada como dissidente política do regime ditatorial instaurado em 1964”.
A decisão também inclui o motorista Geraldo Ribeiro, que conduzia o veículo de JK no momento da colisão fatal.
A revelação que abre novas perguntas
Entre os elementos mais impressionantes apresentados pela investigação está um episódio que parece saído de um romance político.
Segundo a comissão, alguns dos principais veículos de imprensa do país receberam, quinze dias antes da morte de JK, a informação de que o ex-presidente teria morrido em um acidente automobilístico.
A notícia foi posteriormente desmentida.
Em 22 de agosto de 1976, porém, Juscelino realmente morreria em circunstâncias oficialmente classificadas como acidente de trânsito.
Para os investigadores, a coincidência exige explicações e integra o conjunto de elementos que apontam para a existência de um plano em andamento.
O homem que a ditadura não conseguia esquecer
A narrativa tradicional costuma apresentar JK como uma figura política do passado quando morreu aos 73 anos.
O relatório da comissão sustenta justamente o contrário.
Segundo a investigação, o ex-presidente continuava sendo um ator político relevante e capaz de influenciar os rumos da abertura democrática.
Cassado após o golpe de 1964, perseguido por sucessivos Inquéritos Policiais Militares, submetido ao exílio e alvo constante dos órgãos de segurança, JK jamais deixou de ser observado pelo regime.
Documentos reunidos pela comissão indicam que seu nome continuava a provocar inquietação dentro da estrutura militar mesmo mais de uma década após o golpe.
A investigação recupera relatos de monitoramento, ameaças, advertências de aliados e até planos anteriores que cogitavam sua eliminação física.
Entre os episódios analisados estão referências ao Plano Parasar, denúncias de perseguição durante o exílio e alertas que teriam chegado ao ex-presidente por intermédio de figuras influentes da vida pública nacional.
Para os investigadores, a questão central não é apenas como JK morreu.
A pergunta fundamental passa a ser outra:
por que um homem afastado do poder continuava a causar tanto temor ao regime?
A Operação Condor e os “acidentes” políticos
Um dos capítulos mais sensíveis do relatório trata da conexão entre o caso JK e a Operação Condor, rede de cooperação repressiva entre ditaduras sul-americanas durante a Guerra Fria.
A comissão analisou documentos brasileiros, estrangeiros e registros produzidos ao longo de décadas de investigação.
Segundo a relatora, os documentos apontam para a existência de práticas de eliminação política que frequentemente buscavam apresentar assassinatos como acidentes, suicídios ou fatalidades comuns.
O relatório dedica centenas de páginas à análise dessas operações clandestinas, incluindo referências a ações conhecidas internamente como “Código 12”, expressão associada a mortes com aparência de acidente.
A investigação não afirma apenas que havia perseguição política.
Ela procura demonstrar que existia um método.
O acidente que nunca convenceu
A versão oficial sustentada desde 1976 afirmava que o Opala que transportava JK teria sido atingido por um ônibus da Viação Cometa.
A colisão teria feito o motorista perder o controle do veículo, atravessar o canteiro central da rodovia e colidir frontalmente com uma carreta.
O problema é que essa narrativa começou a apresentar fissuras quase imediatamente.
O motorista do ônibus, Josias Nunes de Oliveira, sempre negou qualquer contato com o automóvel de JK.
Nenhum dos passageiros ouvidos confirmou a colisão.
Posteriormente, Josias foi absolvido pela Justiça por ausência de provas.
Décadas depois, a comissão concluiu que a colisão entre o ônibus e o Opala provavelmente jamais aconteceu.
Segundo o relatório, a versão oficial foi construída apesar da ausência de evidências consistentes e em contradição com diversos depoimentos colhidos na época.
A máquina de encobrimento
Talvez o aspecto mais devastador do relatório seja a descrição daquilo que os investigadores chamam de “máquina de mentiras”.
Ao longo de centenas de páginas, a comissão enumera dezenas de irregularidades que, segundo sua interpretação, impediram o esclarecimento dos fatos.
Entre elas estão:
- desaparecimento de documentos;
- extravio de registros considerados relevantes;
- manipulação de fotografias;
- quebra da cadeia de custódia dos corpos;
- ausência de exames toxicológicos fundamentais;
- alterações em registros de horários;
- desconsideração de testemunhas;
- condução direcionada das investigações;
- tentativas de sustentar uma versão incompatível com os elementos disponíveis.
O relatório chega a listar mais de trinta fraudes ou irregularidades distintas identificadas ao longo da investigação histórica.
A conclusão é contundente: o Estado não apenas falhou em esclarecer o ocorrido, como teria atuado para impedir que a verdade viesse à tona.
O caso do motorista acusado injustamente
Um dos personagens mais esquecidos dessa história é Josias Nunes de Oliveira.
Durante anos, ele carregou o peso de ser apontado como responsável pela morte de um ex-presidente da República.
A comissão recuperou documentos e testemunhos que reforçam sua inocência.
Segundo registros analisados, ele chegou a relatar ter recebido proposta financeira para assumir uma culpa que negava possuir.
Nenhuma prova material confirmou a versão construída contra ele.
Por isso, uma das medidas anunciadas pela comissão é a realização de um pedido formal de desculpas por parte do Estado brasileiro.
O que muda agora
A decisão da CEMDP não possui apenas valor simbólico.
Ela produz consequências concretas.
A comissão irá comunicar formalmente a família de JK, solicitar a retificação da certidão de óbito e incluir oficialmente seu nome entre as vítimas da ditadura militar.
Também serão notificados órgãos públicos, instituições de memória, o Memorial JK e o Ministério da Educação.
A recomendação é que os resultados da investigação sejam considerados em futuras revisões de materiais didáticos e conteúdos escolares.
Uma ferida aberta da democracia brasileira
Poucos personagens sintetizam tanto as esperanças e contradições do Brasil moderno quanto Juscelino Kubitschek.
Presidente responsável pela construção de Brasília e por um dos períodos de maior otimismo econômico do século XX, JK transformou-se, após o golpe de 1964, em alvo permanente da repressão política.
A decisão anunciada pela Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos não encerra todas as dúvidas.
Mas representa um marco histórico.
Ao reconhecer oficialmente que a morte do ex-presidente não pode mais ser tratada como simples acidente automobilístico, o Estado brasileiro revisita um dos capítulos mais controversos de sua história recente.
Quase cinquenta anos depois, a pergunta já não é apenas como JK morreu.
A pergunta que permanece ecoando é por que foi necessário tanto tempo para que o país admitisse que a versão oficial talvez nunca tenha contado toda a verdade.

