Universidades brasileiras perdem espaço no ranking global; país precisaria investir R$ 165 bilhões a mais por ano para acompanhar a China

As universidades brasileiras não estão necessariamente produzindo menos ciência. O problema é que o restante do mundo está acelerando muito mais rápido. Essa é a principal leitura que emerge do ranking 2026 do Center for World University Rankings (CWUR), no qual 45 das 52 instituições brasileiras classificadas perderam posições.

O levantamento reacendeu o alerta sobre o lugar do Brasil na corrida global pelo conhecimento. A queda das universidades brasileiras no ranking não deve ser interpretada apenas como um boletim de desempenho acadêmico. Ela revela uma disputa mais profunda: países que transformaram ciência, tecnologia e inovação em estratégia nacional estão avançando em velocidade superior à brasileira.

O CWUR avaliou mais de 21 mil instituições de ensino superior no mundo e classificou as 2.000 melhores. A metodologia utiliza indicadores objetivos relacionados à qualidade da educação, empregabilidade dos ex-alunos, qualidade do corpo docente e desempenho em pesquisa. A dimensão de pesquisa responde por 40% da pontuação total, considerando produção científica, publicações em periódicos de alto impacto, influência e citações.

Esse detalhe é central para compreender o resultado. O ranking não mede apenas a qualidade das aulas ou a relevância social das universidades. Ele mede, sobretudo, a capacidade das instituições de produzir conhecimento reconhecido internacionalmente. Nesse tipo de competição, a posição de uma universidade depende não apenas do que ela faz, mas também da velocidade com que as demais avançam.

A China é o exemplo mais evidente dessa transformação. Em 2023, o país investiu cerca de 2,59% do seu Produto Interno Bruto em pesquisa e desenvolvimento, segundo dados do Banco Mundial baseados em estatísticas da Unesco. O Brasil, por sua vez, investiu 1,19% do PIB em P&D em 2022 e 2023, conforme análise do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Embora o percentual brasileiro tenha se recuperado em relação a 2021, ele ainda permanece abaixo do pico recente de 1,28% registrado em 2015.

É nesse ponto que o ranking deixa de ser apenas uma lista universitária e se transforma em diagnóstico de desenvolvimento nacional. O Brasil tem universidades fortes, como USP, Unicamp, UFRJ, Unesp, UFRGS e UFMG. O país também mantém produção científica relevante na América Latina. Mas o esforço nacional em pesquisa ainda é pequeno quando comparado ao de países que decidiram disputar a liderança tecnológica do século XXI.

A conta ajuda a dimensionar o problema. O Produto Interno Bruto brasileiro somou R$ 11,7 trilhões em 2024, segundo o IBGE. Se o Brasil investe cerca de 1,19% do PIB em P&D, isso equivale a aproximadamente R$ 139 bilhões por ano. Para alcançar um esforço proporcional semelhante ao da China, de 2,59% do PIB, o país precisaria investir cerca de R$ 303 bilhões anuais. A diferença é de aproximadamente R$ 164 bilhões, arredondada para R$ 165 bilhões por ano.

A fórmula é simples: aplica-se sobre o PIB brasileiro o percentual de investimento chinês em pesquisa e desenvolvimento. Isso não significa que o Brasil precisaria copiar o modelo político ou econômico da China, mas mostra o tamanho da distância entre os dois países na prioridade dada à ciência.

A diferença também ajuda a explicar por que universidades brasileiras podem cair no ranking mesmo mantendo produção científica relevante. Rankings internacionais são comparativos. Uma instituição pode melhorar seus indicadores absolutos e ainda assim perder posições se universidades de outros países avançarem mais rapidamente. É a lógica de uma corrida: não basta andar; é preciso acompanhar o ritmo dos competidores.

A Unesco mostra que o investimento global em P&D subiu de 1,71% do PIB mundial em 2015 para 1,92% em 2023. Na Europa e na América do Norte, a média chegou a 2,55% do PIB. No Leste e Sudeste Asiático, atingiu 2,42%. Ao mesmo tempo, 73% dos países ainda investem menos de 1% do PIB em pesquisa e desenvolvimento. O Brasil está acima desse grupo de menor investimento, mas abaixo das regiões e países que puxam a fronteira global da inovação.

Essa diferença de intensidade científica tem consequências concretas. Países que investem mais em P&D tendem a liderar áreas estratégicas como inteligência artificial, semicondutores, biotecnologia, defesa, energia limpa, saúde, agricultura de precisão e indústria farmacêutica. Universidade, nesse contexto, não é apenas espaço de formação profissional. É infraestrutura de soberania.

O debate, portanto, não deve se limitar à pergunta sobre por que a USP caiu ou por que determinada universidade perdeu posições. A questão mais importante é outra: que projeto nacional de ciência o Brasil pretende sustentar nas próximas décadas?

Se o país aumentasse gradualmente seu investimento em P&D em 0,15 ponto percentual do PIB por ano, levaria cerca de uma década para se aproximar do esforço científico chinês atual. Em um cenário mais agressivo, com aumento anual de 0,25 ponto percentual do PIB, esse patamar poderia ser alcançado em cinco ou seis anos. Em ambos os casos, a condição decisiva seria a continuidade da política pública, algo historicamente frágil no Brasil.

Essa continuidade envolve mais do que orçamento federal. Exige fortalecimento das universidades públicas, expansão de bolsas, estabilidade para agências como CNPq, Capes, Finep e fundações estaduais de amparo à pesquisa, modernização de laboratórios, maior participação empresarial em inovação e políticas industriais capazes de transformar conhecimento científico em desenvolvimento econômico.

A própria trajetória brasileira mostra que investir em ciência produz resultados. O país construiu universidades públicas de excelência, desenvolveu tecnologia agrícola tropical, consolidou programas de pós-graduação reconhecidos internacionalmente e mantém capacidade de pesquisa em áreas estratégicas. O paradoxo é que essa base científica convive com ciclos de desfinanciamento, instabilidade orçamentária e baixa articulação entre universidade, Estado e setor produtivo.

Por isso, a narrativa de que “nunca se investiu tanto em ciência” precisa ser tratada com precisão. Em valores nominais, os dispêndios brasileiros em P&D cresceram ao longo do tempo, acompanhando a expansão da economia e dos orçamentos públicos e privados. Mas, como proporção do PIB, o esforço brasileiro não está no maior patamar histórico recente. O país investiu 1,19% do PIB em 2022 e 2023, abaixo dos 1,28% alcançados em 2015.

A diferença entre valor absoluto e esforço relativo é essencial para evitar interpretações enganosas. O Brasil pode gastar mais reais em ciência hoje do que gastava no passado e, ainda assim, estar investindo menos do que seria necessário para competir com países que aumentaram sua intensidade científica. É esse deslocamento que o ranking do CWUR ajuda a revelar.

A queda das universidades brasileiras, portanto, não deve ser lida apenas como derrota institucional. Ela é um aviso. O país ainda tem capital humano, tradição acadêmica e universidades capazes de disputar espaço internacional. Mas, sem uma política robusta e permanente de financiamento científico, tende a perder relevância relativa na produção global de conhecimento.

No século XXI, ciência deixou de ser apenas assunto de laboratório. Tornou-se elemento central de soberania, produtividade, saúde pública, transição energética, segurança alimentar e poder geopolítico. O ranking das universidades mostra apenas a superfície de uma disputa muito maior. A pergunta decisiva não é apenas quantas posições o Brasil perdeu, mas quanto o país está disposto a investir para voltar a correr no ritmo do mundo.

Referências

CENTER FOR WORLD UNIVERSITY RANKINGS. World University Rankings 2026. CWUR, 2026.

CENTER FOR WORLD UNIVERSITY RANKINGS. Methodology: World University Rankings. CWUR, 2026.

INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICA APLICADA. Evolução dos dispêndios em pesquisa e desenvolvimento. Ipea, 2025.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. PIB cresce 3,4% em 2024 e fecha o ano em R$ 11,7 trilhões. IBGE, 2025.

BANCO MUNDIAL. Research and development expenditure (% of GDP) – China. World Bank Data, 2026.

UNESCO INSTITUTE FOR STATISTICS. 2026 R&D Data Release. UIS/Unesco, 2026.

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