Ensino a distância impulsiona lucros bilionários e aprofunda financeirização da educação superior, aponta estudo

A explosão das matrículas em cursos de ensino superior a distância (EaD) no Brasil não pode ser compreendida apenas como uma ampliação do acesso à educação. Segundo estudo publicado na Revista Práxis Educacional, o crescimento acelerado da modalidade está diretamente associado à financeirização do setor educacional e à atuação de grandes conglomerados privados que transformaram a educação em um ativo estratégico de valorização financeira.

O artigo, assinado por Rhoberta Araújo Santana, Liara das Graças Costa de Medeiros Souza e Jailson Batista dos Santos, analisa a expansão da EaD entre 2014 e 2024, com foco nas estratégias adotadas pelas holdings Cogna Educação e YDUQS, dois dos maiores grupos educacionais do país.

De acordo com os autores, a modalidade a distância tornou-se a principal alavanca de crescimento dessas corporações por apresentar custos operacionais significativamente menores e maior capacidade de escalabilidade. A combinação entre plataformas digitais, polos descentralizados e redução de despesas com infraestrutura física permitiu ampliar o número de matrículas sem aumento proporcional dos investimentos.

A pesquisa sustenta que esse movimento representa uma transformação estrutural da educação superior brasileira, marcada pela crescente influência da lógica financeira sobre as decisões educacionais. Nessa perspectiva, a expansão da EaD deixa de ser apenas uma política de democratização do acesso e passa a integrar estratégias corporativas voltadas à maximização do retorno aos acionistas.

O estudo argumenta que a educação superior vem sendo progressivamente incorporada aos mecanismos de valorização do chamado capital fictício, conceito utilizado para descrever formas de acumulação baseadas em ativos financeiros e expectativas de rentabilidade futura. Nesse cenário, o estudante passa a ser tratado não apenas como sujeito do processo educativo, mas também como indicador de desempenho financeiro para investidores e mercados.

Os pesquisadores destacam ainda o papel desempenhado pelo Estado nesse processo. Programas como o Fundo de Financiamento Estudantil (FIES) e o Programa Universidade para Todos (ProUni), embora tenham ampliado oportunidades de acesso ao ensino superior, também contribuíram para fortalecer a expansão dos grupos privados ao direcionarem recursos públicos para instituições particulares.

Outro aspecto identificado pela pesquisa é o intenso processo de fusões, aquisições e reestruturações empresariais realizado pelas grandes holdings educacionais. Essas operações ampliaram a concentração de mercado e consolidaram modelos de negócios baseados predominantemente na educação digital, favorecendo ganhos de escala e aumento da lucratividade.

Os autores observam que essa dinâmica evidencia uma contradição central da educação contemporânea: de um lado, a educação é reconhecida constitucionalmente como direito social; de outro, sua organização passa a responder cada vez mais às exigências do mercado financeiro. Como resultado, a expansão do acesso convive com preocupações sobre qualidade acadêmica, precarização das condições de trabalho docente e crescente mercantilização do ensino.

A pesquisa conclui que a modalidade EaD ocupa posição estratégica na atual fase do capitalismo educacional brasileiro. Mais do que uma inovação tecnológica ou pedagógica, ela se tornou um instrumento fundamental para a expansão dos grandes conglomerados privados e para a consolidação da lógica financeira na educação superior.

Referência

SANTANA, Rhoberta Araújo; SOUZA, Liara das Graças Costa de Medeiros; SANTOS, Jailson Batista dos. A financeirização da educação superior via EaD no Brasil. Revista Práxis Educacional, v. 22, n. 53, 2026.

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