Criado com a promessa de fortalecer a integração regional e aproximar universidades da América do Sul, o Setor Educacional do Mercosul (SEM) passou a conviver, nos últimos anos, com uma crescente tensão entre os ideais de cooperação solidária e a expansão de lógicas de mercado na educação superior. A conclusão é de um estudo publicado na Revista Práxis Educacional que analisou as políticas de internacionalização adotadas pelo bloco entre 2016 e 2020.
Os pesquisadores Bruno Layson Ferreira Leão e Thayse Mychelle de Aquino Freitas, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), investigaram programas, relatórios, atas de reuniões e documentos oficiais do Mercosul para compreender como a internacionalização da educação superior vem sendo conduzida na região. Segundo os autores, mecanismos originalmente concebidos para promover integração acadêmica e desenvolvimento regional passaram a incorporar elementos associados à competitividade internacional e à mercantilização da educação.
O estudo argumenta que a internacionalização da educação superior latino-americana foi historicamente associada à construção de redes de cooperação, intercâmbio científico e fortalecimento da soberania regional. No entanto, a crescente influência de organismos multilaterais, agendas neoliberais e indicadores internacionais de desempenho teria alterado gradualmente essa dinâmica.
Segundo os pesquisadores, universidades passaram a ser vistas não apenas como espaços de formação e produção de conhecimento, mas também como ativos estratégicos para aumentar competitividade econômica, atrair investimentos e ampliar influência internacional. Nesse contexto, a mobilidade acadêmica, a acreditação internacional e os sistemas de avaliação ganham importância crescente como instrumentos de posicionamento institucional.
A análise concentra-se especialmente no Plano de Ação 2016-2020 do Setor Educacional do Mercosul. O documento previa ações para ampliar a mobilidade de estudantes, professores, pesquisadores e gestores por meio de programas como o Sistema Integrado de Mobilidade Acadêmica do Mercosul (SIMERCOSUR), o Programa Mobilidade Acadêmica Regional do Mercosul (MARCA), o Programa de Intercâmbio de Graduação em Espanhol e Português (PGPE) e o Programa de Associação Acadêmica de Pós-Graduação do Mercosul (PASAP).
Apesar dos objetivos de integração regional, os autores identificaram dificuldades significativas relacionadas ao financiamento dessas iniciativas. Diversos programas enfrentaram restrições orçamentárias, atrasos na implementação e redução de investimentos por parte dos Estados membros. A escassez de recursos levou o bloco a discutir novas fontes de financiamento e abriu espaço para a aproximação com atores privados e mecanismos externos de apoio financeiro.
A pesquisa destaca ainda que documentos oficiais passaram a incorporar conceitos ligados ao desenvolvimento de “capital humano” e à formação voltada para o mercado de trabalho. Para os autores, essa mudança de linguagem não é apenas semântica. Ela reflete uma transformação mais ampla na forma de compreender a educação superior, cada vez mais associada à competitividade econômica e à geração de valor.
Outro episódio analisado foi a decisão do governo brasileiro, em 2019, de anunciar sua saída do Setor Educacional do Mercosul. A justificativa oficial foi a suposta falta de resultados concretos do bloco na melhoria dos indicadores educacionais. Segundo o estudo, a retirada do Brasil enfraqueceu iniciativas regionais e ampliou dificuldades de coordenação e financiamento em diversas ações voltadas à educação superior.
Para os pesquisadores, a experiência recente do Mercosul revela uma contradição crescente. Ao mesmo tempo em que os discursos oficiais continuam defendendo integração regional, solidariedade e cooperação acadêmica, as políticas implementadas passam a incorporar cada vez mais elementos associados à lógica concorrencial e à internacionalização orientada pelo mercado.
A conclusão do estudo é que a internacionalização da educação superior no Mercosul permanece marcada por uma disputa entre dois projetos distintos: um baseado na cooperação regional e no fortalecimento coletivo das universidades latino-americanas; outro orientado pela competitividade global, pela atração de recursos e pela crescente mercantilização do conhecimento. O resultado dessa disputa poderá influenciar os rumos da integração educacional sul-americana nas próximas décadas.
Referência
LEÃO, Bruno Layson Ferreira; FREITAS, Thayse Mychelle de Aquino. Mercantilização e as políticas de internacionalização no setor educacional do Mercosul (2016-2020). Revista Práxis Educacional, v. 22, n. 53, 2026.
