No Dia dos Namorados, enquanto boa parte da indústria musical aposta em canções sobre encontros e romances, a cantora Mora Lee escolheu outro caminho: lançar uma obra dedicada à memória, à ancestralidade e à reconstrução da identidade brasileira.
Chega hoje às plataformas digitais Alma Preta, segundo capítulo do projeto musical iniciado com Sangue Rubro, lançado em maio pela Uivante Records. Juntos, os dois discos formam uma obra conceitual inspirada na produção poética do escritor e compositor paulista Antonio Archangelo, construída a partir de reflexões sobre negritude, linguagem, pertencimento e formação cultural brasileira.
Mais do que uma sequência de músicas, Alma Preta representa a continuação de uma travessia.
Se Sangue Rubro mergulhava nas feridas históricas deixadas pela escravidão, pela violência colonial e pelos processos de apagamento cultural, Alma Preta procura investigar aquilo que resistiu. O disco desloca o olhar da dor para a permanência, da ruptura para a reinvenção, da memória para a criação.
A inspiração conceitual nasce do encontro entre duas obras fundamentais da reflexão contemporânea sobre língua e cultura: Latim em Pó, de Caetano Galindo, e Camões com Dendê, de Yeda Pessoa de Castro. A partir dessas influências, Archangelo desenvolveu uma série de poemas que buscam compreender a formação da chamada alma brasileira por meio das marcas africanas presentes na linguagem, na musicalidade e na experiência cotidiana do país.
Essa investigação poética tornou-se canção.
Com treze faixas, Alma Preta apresenta títulos que parecem funcionar como capítulos de um mesmo livro: Escravos de Njó, Tilintar de Alvenaria, Versos em Trânsito, Versos in Vitro, Beba Água, Cântico Pleural, Cerrado, Liquidifeito, Pítia do Cerrado, Coccinella, Sol, Prece de Ícaro e Nobre Senhores.
A diversidade dos títulos revela uma obra que transita entre ancestralidade, urbanidade, espiritualidade, crítica social e imaginação poética. Em vez de oferecer respostas prontas, as composições convidam o ouvinte a percorrer territórios simbólicos onde convivem a herança africana, o português brasileiro, o cerrado, os mitos clássicos e as experiências contemporâneas.
Os números já demonstram que a proposta encontrou público.
Dados da distribuidora apontam mais de 24 mil visualizações em vídeos, cerca de 800 reproduções em streaming e ouvintes distribuídos por diferentes países. A audiência internacional alcança Portugal, Espanha, Estados Unidos, Moçambique, Timor-Leste, França, Alemanha e Cabo Verde, evidenciando que a discussão sobre língua, identidade e ancestralidade ultrapassa fronteiras nacionais.
Entre as faixas que mais despertaram interesse do público nos lançamentos recentes da artista estão Na Poeira do Seu Nome, Eu Curo Teu Peito, Esperanças Opacas, Exéquias, Última Carta e Apocatástase, canções que ajudam a consolidar a identidade estética construída por Mora Lee desde sua chegada à Uivante Records.
Ao reunir os discos Sangue Rubro e Alma Preta, o projeto alcança sua forma completa: uma espécie de álbum-poema sobre o Brasil.
Um Brasil que fala português, mas também fala iorubá, quimbundo, umbundo e tantas outras línguas invisibilizadas pela história. Um Brasil que carrega cicatrizes, mas também invenções. Um Brasil cuja identidade talvez só possa ser compreendida quando ouvimos as vozes que ajudaram a construí-lo.
Com Alma Preta, Mora Lee não apenas lança um novo disco.
Ela conclui uma obra que transforma poesia em música e memória em presença:

