Relatório internacional afirma que a inteligência artificial pode tornar governos mais eficientes, mas também ampliar injustiças, burocracia e falta de transparência se for implementada sem planejamento.
A inteligência artificial está sendo adotada rapidamente por governos de todo o mundo para agilizar atendimentos, formular políticas públicas e automatizar processos administrativos. No entanto, um novo relatório internacional faz um alerta contundente: mais de 80% dos projetos de IA fracassam, e sua adoção sem planejamento pode tornar a administração pública menos transparente, ampliar desigualdades e comprometer direitos dos cidadãos.
O documento “Governando com IA: Quatro ações para construir uma Administração Pública transformadora e resiliente” reúne pesquisadores de universidades do Canadá, Brasil, Reino Unido, Coreia do Sul, Alemanha e África do Sul e propõe um novo modelo de governança para o uso da inteligência artificial no setor público. Entre os autores está o professor brasileiro Carlos Affonso Pereira de Souza, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS Rio).
A IA já chegou aos governos
Segundo o relatório, cerca de 70% dos países já utilizam inteligência artificial para melhorar processos administrativos internos, enquanto aproximadamente um terço emprega a tecnologia na formulação e implementação de políticas públicas.
Os exemplos são diversos: no Canadá, sistemas de IA resumiram mais de 11 mil contribuições de uma consulta pública sobre a estratégia nacional de inteligência artificial; Cingapura utiliza agentes conversacionais para atender cidadãos em diferentes serviços públicos; e o Peru emprega IA para estimar investimentos necessários na infraestrutura hídrica nacional.
Quando a tecnologia também erra
Apesar do entusiasmo, os pesquisadores lembram que a IA também já provocou graves problemas em diferentes países.
Nos Estados Unidos, aproximadamente 40 mil pessoas foram falsamente acusadas de fraude em pedidos de seguro-desemprego após decisões automatizadas por sistemas de inteligência artificial. Já na Coreia do Sul, materiais educacionais produzidos por IA apresentaram erros factuais e levantaram preocupações sobre privacidade de dados.
Segundo os autores, esses episódios mostram que a IA pode reproduzir — e até intensificar — falhas já existentes na administração pública quando implementada sem mecanismos de supervisão.
O problema não é a IA
A principal conclusão do relatório é que os desafios são muito mais institucionais do que tecnológicos.
Na avaliação dos pesquisadores, governos que mantêm processos burocráticos ineficientes tendem apenas a automatizar esses mesmos problemas quando adotam inteligência artificial sem revisar previamente seus fluxos de trabalho. Em vez de eliminar gargalos, a tecnologia pode acelerar decisões equivocadas, aumentar a opacidade administrativa e dificultar a responsabilização dos agentes públicos.
Quatro caminhos para uma IA mais segura
O documento apresenta quatro recomendações centrais para que a inteligência artificial fortaleça, em vez de enfraquecer, o setor público.
A primeira orientação é que governos definam claramente quais problemas desejam resolver antes de adquirir qualquer solução tecnológica. Em seguida, defendem investimentos permanentes na capacitação dos servidores públicos e na criação de equipes multidisciplinares especializadas em IA.
Os pesquisadores também recomendam reduzir a dependência de grandes empresas de tecnologia por meio de cooperação entre governos e compartilhamento de infraestrutura digital. Por fim, defendem a criação de uma “infraestrutura de confiança”, baseada em transparência, auditorias independentes, mecanismos de recurso para os cidadãos e supervisão permanente sobre os sistemas utilizados pela Administração Pública.
Confiança será o maior desafio
Outro ponto destacado pelo relatório é que poucos países possuem legislação capaz de garantir transparência e mecanismos de contestação quando decisões administrativas utilizam inteligência artificial.
Para os autores, toda pessoa deve saber quando está sendo atendida por um sistema automatizado e ter direito de solicitar revisão humana das decisões que afetem seus direitos. Além disso, defendem registros públicos contendo informações sobre todos os sistemas de IA utilizados pelos governos, avaliações de impacto antes da implantação e fiscalização contínua por órgãos independentes.
IA deve fortalecer, e não substituir, o Estado
Na conclusão, os pesquisadores afirmam que a inteligência artificial não transformará os governos apenas por ser adotada em larga escala.
Sem planejamento, transparência e fortalecimento institucional, a tecnologia pode simplesmente acelerar problemas já existentes. Quando implementada de forma responsável, porém, a IA tem potencial para tornar serviços públicos mais rápidos, eficientes e acessíveis, preservando princípios fundamentais como equidade, prestação de contas e confiança da população nas instituições públicas.
Referência
RÉGIS, Catherine; MARTIN-BARITEAU, Florian; ADAMS, Rachel; BERTRAND, Brunessen; EFFODUH, Jake Okechukwu; PARYCEK, Peter; PEREIRA DE SOUZA, Carlos Affonso; YOON, Hyesun (Melissa). Governando com IA: quatro ações para construir uma Administração Pública transformadora e resiliente. Relatórios de Políticas Globais sobre IA. IVADO / Iniciativa IA + Sociedade, Universidade de Ottawa, 2026. DOI: 10.20381/nwxs-2730.
