Experiência empresarial pode contribuir para gestão municipal, defende estudo sobre liderança política

Trabalho apresentado à Faculdade Antonio Meneghetti analisa, pela perspectiva da Ontopsicologia, como competências associadas à liderança empresarial poderiam ser aplicadas à administração pública — mas conclusões são teóricas e não foram testadas empiricamente

A experiência acumulada por empresários pode contribuir para a administração de municípios ao incorporar à gestão pública elementos como planejamento, responsabilização, capacidade de decisão e orientação para resultados. Mas transportar práticas empresariais para uma prefeitura exige reconhecer uma diferença fundamental: na esfera pública, o objetivo deve ser o bem comum.

Essa é a tese discutida por Jaqueline Milanesi no estudo “Contribuições da Ciência Ontopsicológica para o líder na gestão da administração pública municipal”, apresentado em agosto de 2026 como trabalho de conclusão da Especialização em Ontopsicologia da Faculdade Antonio Meneghetti (AMF), sob orientação de Josiane Peccin Barbieri.

O trabalho possui uma característica que ajuda a explicar sua origem: a autora parte de sua própria transição profissional. Depois de atuar como empresária e liderança no setor privado, Milanesi assumiu a prefeitura de um município do Rio Grande do Sul e passou a refletir sobre como sua experiência anterior poderia contribuir para a nova função.

Da empresa para a prefeitura

A questão central da pesquisa é justamente saber o que a chamada “forma mentis empresarial” pode oferecer à gestão pública municipal.

Segundo a análise desenvolvida pela autora, algumas características associadas à liderança empresarial — capacidade de coordenar recursos e pessoas, definição de objetivos, busca de soluções e competência econômica — poderiam contribuir para a administração municipal.

Há, entretanto, uma mudança essencial de finalidade.

Enquanto a atividade empresarial está associada ao resultado econômico, a administração pública precisa direcionar seus recursos e decisões para aquilo que o trabalho define como bem comum.

Nas conclusões, Milanesi sustenta que a experiência empresarial pode oferecer uma lógica de eficiência e competência econômica ao agente político, desde que esses instrumentos sejam reorganizados em função do interesse coletivo.

Servidor não deveria crescer apenas pelo salário

Outro aspecto discutido pelo estudo envolve a gestão dos servidores públicos.

A autora defende a construção de uma cultura de responsabilidade e engajamento dentro da administração municipal.

Nessa perspectiva, o desenvolvimento profissional não deveria ser compreendido exclusivamente como aumento salarial, mas também como ampliação da capacidade técnica, resolução de problemas e realização profissional.

O gestor teria, assim, uma função de liderança sobre a cultura organizacional da prefeitura, procurando criar condições para que servidores assumam maior responsabilidade pelos resultados do serviço prestado à população.

Gestão deveria produzir efeitos além dos quatro anos de mandato

Um dos problemas levantados pelo trabalho é particularmente relevante para as administrações municipais: como fazer uma política pública sobreviver ao governante que a criou?

A pesquisa discute a necessidade de construir práticas capazes de ultrapassar os quatro anos de um mandato.

Em vez de concentrar a atuação somente em realizações imediatas, a liderança política deveria produzir mudanças institucionais, culturais e profissionais que permanecessem incorporadas à administração.

A formação de pessoas e a transformação da cultura administrativa aparecem, portanto, como elementos de um possível legado que não depende exclusivamente da permanência de determinado prefeito no poder.

Estudo também defende aproximação entre setores público e privado

Outro objetivo do trabalho é refletir sobre as relações entre administração pública e iniciativa privada.

A autora argumenta que a experiência empresarial pode contribuir para identificar entraves burocráticos e procurar soluções administrativas mais funcionais.

O trabalho também sustenta que gestores precisam compreender as relações entre economia e política, reconhecendo o papel desempenhado pelo setor produtivo no desenvolvimento das comunidades.

Isso não significa, entretanto, que público e privado sejam apresentados como equivalentes. A própria pesquisa distingue suas finalidades e coloca o bem comum como objetivo da função política.

Ontopsicologia é a base teórica do trabalho

Há uma característica metodológica importante para compreender corretamente as conclusões.

O estudo não é uma pesquisa experimental sobre desempenho de prefeituras administradas por empresários, nem compara indicadores de diferentes municípios.

Trata-se de um ensaio teórico e bibliográfico, construído principalmente a partir das obras de Antonio Meneghetti e dos conceitos da Ontopsicologia.

Conceitos específicos dessa abordagem, como “Em Si ôntico”, “forma mentis”, “psicologia do líder” e “humanismo perene”, estruturam boa parte da argumentação desenvolvida pela autora.

Isso estabelece um limite importante para a leitura jornalística do estudo: suas conclusões devem ser entendidas como proposições construídas dentro desse referencial teórico, e não como evidências empíricas de que prefeitos provenientes do setor empresarial necessariamente produzem administrações mais eficientes.

A própria autora reconhece, nas considerações finais, que a pesquisa possui caráter “estritamente exploratório e bibliográfico” e aponta como possibilidade futura o desenvolvimento de novos estudos sobre estratégias práticas de liderança.

Liderança feminina aparece como caminho para novas pesquisas

O trabalho também introduz uma discussão sobre mulheres em posições de liderança.

A partir do referencial ontopsicológico adotado, Milanesi aborda estereótipos relacionados à presença feminina nos espaços empresariais e políticos e argumenta em favor de maior autonomia e protagonismo das mulheres.

O tema, porém, não constitui o objeto principal da pesquisa.

Nas conclusões, a própria autora indica a “inteligência ao feminino” na liderança política como um possível desdobramento para investigações futuras.

Administrar uma cidade não é administrar uma empresa

A discussão levantada pelo estudo toca em uma questão recorrente na política brasileira: até que ponto métodos desenvolvidos na iniciativa privada podem ser transportados para o Estado?

A pesquisa de Milanesi oferece uma resposta a partir da Ontopsicologia: competências empresariais podem ser aproveitadas, mas precisam ser redirecionadas para outra finalidade.

Essa distinção é decisiva.

Uma empresa pode selecionar mercados, clientes e investimentos conforme sua estratégia. Uma prefeitura administra direitos, recursos públicos e serviços destinados a uma população inteira, submetida a regras legais, controle institucional e responsabilidades que não existem da mesma maneira no ambiente empresarial.

É justamente nesse encontro entre capacidade de gestão e finalidade pública que está a questão mais interessante levantada pelo trabalho: eficiência administrativa pode ser uma ferramenta importante, mas, no Estado, o resultado precisa ser medido também pela capacidade de produzir benefícios coletivos e deixar instituições capazes de funcionar para além de quem ocupa temporariamente o poder.

Fonte: MILANESI, Jaqueline. Contribuições da Ciência Ontopsicológica para o líder na gestão da administração pública municipal. Trabalho de Conclusão de Curso (Especialização em Ontopsicologia) — Faculdade Antonio Meneghetti, Restinga Sêca/Recanto Maestro, 2026. Orientação: Profa. Ma. Josiane Peccin Barbieri. Trabalho apresentado à comissão examinadora em 7 de agosto de 2026.

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