TikTok e Instagram entram na sala de aula, mas professores ainda enfrentam falta de formação e estrutura, aponta pesquisa

Dissertação da UNEB investiga como docentes do Ensino Médio percebem o uso das redes sociais como dispositivos digitais de aprendizagem e coloca em debate a distância entre a cultura digital dos jovens e as práticas escolares

TikTok e Instagram costumam entrar na escola pelo celular dos estudantes. A questão levantada por uma pesquisa desenvolvida na Universidade do Estado da Bahia (UNEB) é outra: essas plataformas também podem entrar no currículo como espaços de aprendizagem?

A discussão está no centro da dissertação de mestrado de Iriane Rosalete Januário da Costa, intitulada Currículo, Ensino Médio e redes sociais na internet: percepção dos professores sobre o uso do TikTok e Instagram como dispositivo digital de aprendizagem, apresentada em 2026 ao Programa de Pós-Graduação em Educação e Contemporaneidade (PPGEduC) da UNEB, sob orientação da professora Mary Valda Souza Sales.

O trabalho investiga justamente a percepção dos professores sobre duas das plataformas mais presentes na cultura digital contemporânea e suas possibilidades de utilização educacional.

A escola disputa atenção com o algoritmo

TikTok e Instagram fazem parte de um ecossistema no qual vídeos curtos, imagens, comentários, compartilhamentos e recomendações algorítmicas ocupam parcela significativa da experiência cotidiana de adolescentes.

Isso cria uma situação peculiar para a educação: enquanto parte importante da comunicação e da produção cultural juvenil acontece nas redes, a organização curricular da escola ainda precisa encontrar maneiras de dialogar pedagogicamente com esses ambientes.

A dissertação desloca, assim, uma discussão muitas vezes limitada à proibição ou liberação do celular.

A pergunta passa a ser sobre o que professores podem fazer pedagogicamente com linguagens e plataformas que os estudantes já utilizam fora da escola.

TikTok e Instagram podem ser mais do que entretenimento

Ao tratar as redes sociais como possíveis dispositivos digitais de aprendizagem, a pesquisa abre espaço para pensar atividades que ultrapassem o consumo passivo de conteúdos.

Vídeos, imagens e outras linguagens próprias das plataformas podem ser incorporados a processos de autoria, comunicação, pesquisa e produção de conhecimento.

Essa perspectiva é especialmente relevante no Ensino Médio, etapa frequentada por jovens que já participam intensamente da cultura digital.

O desafio está em transformar familiaridade tecnológica em experiência educacional significativa. Saber assistir, postar ou compartilhar um vídeo não equivale automaticamente a possuir competências para avaliar informações, construir argumentos ou produzir conhecimento.

Professor continua no centro da mediação

A entrada das redes sociais no currículo também altera o papel do professor.

Se uma quantidade praticamente ilimitada de informações está disponível nas telas dos estudantes, a função docente não desaparece. Ao contrário: ganha importância na seleção, contextualização, problematização e avaliação crítica do conteúdo que circula nesses ambientes.

É justamente aí que o debate sobre redes sociais se aproxima da educação midiática.

Trabalhar com TikTok e Instagram pode significar também discutir autoria, fontes, desinformação, publicidade, influência, representação, privacidade e os mecanismos que determinam por que determinados conteúdos aparecem — e outros desaparecem — das telas.

Usar rede social não significa necessariamente inovar

Há, porém, uma armadilha importante nesse debate.

Levar uma plataforma popular para dentro de uma atividade escolar não transforma automaticamente uma prática tradicional em inovação pedagógica.

Um vídeo no TikTok pode simplesmente reproduzir uma aula expositiva de poucos segundos. Um perfil no Instagram pode funcionar apenas como mural digital.

A questão central, portanto, não está na plataforma em si, mas na intencionalidade pedagógica que orienta seu uso.

É essa distinção que torna pesquisas sobre a percepção dos professores particularmente importantes: são eles que precisam negociar, no cotidiano escolar, as possibilidades pedagógicas, os limites institucionais e as condições concretas de utilização dessas tecnologias.

Formação docente vira questão estratégica

A discussão também evidencia uma diferença que frequentemente desaparece quando se fala em “nativos digitais”.

Estudantes e professores podem utilizar as mesmas plataformas e, ainda assim, possuir relações completamente diferentes com elas.

Além de conhecer tecnicamente uma ferramenta, o professor precisa avaliar sua pertinência curricular, planejar atividades, estabelecer objetivos de aprendizagem e lidar com questões éticas associadas à exposição dos estudantes e à circulação de informações.

Isso transforma a formação docente para a cultura digital em uma questão que vai muito além de ensinar onde clicar.

Redes sociais também carregam riscos

A aproximação entre educação e plataformas comerciais exige cautela.

TikTok e Instagram não foram originalmente concebidos como ambientes escolares. São plataformas estruturadas por modelos de negócio, coleta de dados, publicidade e sistemas algorítmicos de recomendação.

Por isso, sua eventual utilização pedagógica precisa considerar questões como privacidade, proteção de crianças e adolescentes, exposição pública, segurança digital e dependência de serviços privados.

A alfabetização para as redes, nesse sentido, talvez seja tão importante quanto aprender por meio delas.

Entre proibir e incorporar existe um enorme campo pedagógico

A pesquisa da UNEB chega em um momento especialmente relevante para a educação brasileira, em que o lugar dos celulares e das plataformas digitais dentro das escolas tornou-se objeto de crescente discussão pública e normativa.

Mas a dissertação ajuda a mostrar que o debate não precisa ficar restrito a dois extremos: tratar as redes sociais como inimigas da aprendizagem ou considerá-las, por si mesmas, ferramentas educacionais inovadoras.

Entre uma coisa e outra existe o trabalho pedagógico.

TikTok e Instagram podem disputar a atenção dos estudantes com a escola. Podem também oferecer linguagens para criação, expressão e circulação de conhecimento. O que define essa diferença não é simplesmente instalar um aplicativo.

É transformar aquilo que o algoritmo entrega para ser consumido em algo que o estudante seja capaz de questionar, interpretar e também produzir criticamente.

Fonte: COSTA, Iriane Rosalete Januário da. Currículo, Ensino Médio e redes sociais na internet: percepção dos professores sobre o uso do TikTok e Instagram como dispositivo digital de aprendizagem. 2026. Dissertação (Mestrado em Educação e Contemporaneidade) — Programa de Pós-Graduação em Educação e Contemporaneidade, Universidade do Estado da Bahia (UNEB), Salvador, 2026. Orientadora: Prof.ª Dr.ª Mary Valda Souza Sales.

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