Análise de projetos pedagógicos de cinco institutos federais não encontrou menção direta ao ensino ou ao uso da inteligência artificial; pesquisador propõe atualização curricular com formação em dados, ética, pensamento crítico e responsabilidade sobre decisões automatizadas
A inteligência artificial já começa a transformar processos administrativos, análise de dados e tomada de decisões no setor público, mas essa mudança ainda não aparece de forma explícita na formação técnica de profissionais da área. É o que aponta estudo de José Henrique Martins de Araújo, do Instituto Federal do Norte de Minas Gerais (IFNMG), publicado em 2026.
O pesquisador analisou Projetos Pedagógicos de Curso (PPCs) de Técnico em Serviços Públicos de cinco instituições federais, selecionando ao menos uma ocorrência de cada região do Brasil. O principal resultado foi direto: nenhum dos currículos examinados previa explicitamente a inteligência artificial como conteúdo de formação ou como instrumento pedagógico.
A amostra reuniu PPCs do IFSULDEMINAS, IFPR, IFTO, IFB e IFMA. O próprio autor ressalta que o conjunto é pequeno e não permite generalizar o resultado para todos os cursos de Serviços Públicos do país. A pesquisa tem caráter aplicado e exploratório e utilizou pesquisa documental, revisão narrativa, método comparativo e pattern matching.
Informática está no currículo. IA, não
A análise revela uma diferença importante entre oferecer formação básica em informática e preparar o futuro profissional para trabalhar em uma administração pública atravessada por algoritmos.
Os currículos examinados apresentam conteúdos relacionados a informática, cultura digital, tecnologia, ética, responsabilidade social e ambiental e metodologia científica. Entretanto, não foram encontradas referências diretas ao ensino de IA ou ao ensino mediado por inteligência artificial.
Algumas ementas mostram o tamanho dessa distância. No PPC analisado do IFB, por exemplo, Informática Aplicada inclui editores de texto, apresentações, planilhas, navegadores, internet e segurança da informação. No IFMA, aparecem sistemas operacionais, hardware, LibreOffice, redes sociais, Google Drive, banco de dados e introdução à lógica de programação.
Isso não significa, porém, que seja necessário construir os currículos novamente do zero. Segundo o estudo, justamente essas disciplinas já existentes podem fornecer espaço para incorporar competências relacionadas à IA.
O que um servidor precisa saber sobre inteligência artificial?
Para propor essa atualização, Araújo comparou os PPCs com dois referenciais internacionais: o DigComp 3.0, framework europeu de competências digitais, e o K-12 AI Curricula, mapeamento da Unesco sobre currículos de inteligência artificial.
A comparação amplia consideravelmente aquilo que poderia ser entendido como “aprender IA”. Não se trata apenas de ensinar alguém a operar uma ferramenta generativa.
Entre as competências discutidas estão literacia em IA, pensamento computacional, cidadania digital, cibersegurança, alfabetização e interpretação crítica de dados, compreensão do papel humano nos sistemas de IA e avaliação de seus pontos fortes e limitações. O referencial também envolve questões como privacidade, desinformação, vieses, transparência e responsabilidade.
Essa dimensão ganha relevância especial na Administração Pública. Um profissional pode, no futuro, utilizar sistemas automatizados para analisar informações e apoiar decisões que interferem diretamente na vida dos cidadãos. Nesse cenário, saber utilizar a tecnologia é apenas uma parte da formação necessária.
O estudo defende uma preparação capaz de integrar competências técnicas, científicas, filosóficas e cívicas. Isso incluiria desde programação, tratamento e análise de dados até rigor metodológico, reflexão crítica sobre algoritmos, responsabilidade civil, transparência, explicabilidade e inclusão.
IA pode entrar sem criar uma disciplina isolada
Outro resultado interessante está na forma proposta para atualizar os cursos.
O pesquisador identifica que já existem espaços curriculares capazes de receber conteúdos relacionados à inteligência artificial, especialmente nas disciplinas de informática, ética, cidadania e metodologia científica. Projetos integradores também poderiam aproximar estudantes de Serviços Públicos e de áreas como Desenvolvimento de Sistemas.
O mapa conceitual apresentado pelo autor sintetiza uma formação na qual professores poderiam utilizar dados e IA para apoiar a personalização do ensino e oferecer feedback aos estudantes, enquanto os alunos desenvolveriam formação integral, prática profissional e tomada de decisão baseada em dados.
Essa proposta procura preservar um princípio importante da Educação Profissional e Tecnológica (EPT): a formação omnilateral, que não reduz a preparação profissional ao domínio operacional de ferramentas, mas articula dimensões intelectual, científica, cultural, moral, profissional e cívica.
Formação pública corre atrás de uma tecnologia que já chegou
A lacuna encontrada ganha peso diante do avanço da IA sobre a própria Administração Pública. O artigo reúne estudos que apontam possibilidades de automação de tarefas repetitivas, processamento de grandes volumes de dados e apoio à tomada de decisões governamentais, mas também riscos envolvendo privacidade, vieses, falta de transparência, erros e redução da interação humana.
O trabalho também relaciona essa necessidade ao Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA), que prevê investimento na formação e capacitação de profissionais em IA desde o nível técnico até a pós-graduação.
A conclusão do pesquisador, portanto, não é simplesmente colocar ChatGPT ou outra plataforma dentro da sala de aula. O desafio é mais profundo: formar profissionais capazes de compreender quando utilizar inteligência artificial, interpretar criticamente seus resultados e reconhecer quando uma decisão não deve ser simplesmente delegada a um algoritmo.
Ao mesmo tempo, o autor reconhece a principal limitação da pesquisa. Como foram analisados apenas cinco PPCs, o diagnóstico não pode ser extrapolado automaticamente para toda a Educação Profissional e Tecnológica brasileira. Estudos com amostras maiores serão necessários para determinar a extensão nacional dessa lacuna.
Fonte: ARAÚJO, José Henrique Martins de. A formação tecnológica do profissional brasileiro de Administração Pública na era da IA: concebendo uma abordagem de currículo baseada no DigComp 3.0 e no K-12 AI Curricula. Open Science Research, v. 23, 2026. DOI: 10.37885/251020313.
