Arte coloca a masculinidade em xeque e propõe cuidado e vulnerabilidade como novos horizontes

Projeto artístico investiga como o ideal do homem produtivo, dominante e autossuficiente se relaciona com a crise socioecológica e experimenta outras formas de pensar a identidade masculina

O que acontece quando a masculinidade deixa de ser representada pela força, pelo domínio e pela produtividade e passa a ser observada a partir da vulnerabilidade, do cuidado e da interdependência?

Essa é uma das questões que atravessam “Horitzons d’un altre home” (“Horizontes de outro homem”, em tradução livre), projeto de produção artística desenvolvido como Trabalho de Final de Mestrado e dedicado a investigar as transformações possíveis da identidade masculina diante das tensões socioecológicas do mundo contemporâneo.

A pesquisa parte de uma perspectiva teórico-prática e utiliza recursos da gráfica expandida e da escultura para colocar em discussão conceitos que ultrapassam o campo estritamente artístico. Entre eles estão a masculinidade hegemônica, o extrativismo e aquilo que o trabalho identifica como um verdadeiro culto à produtividade.

A proposta estabelece, assim, uma relação provocadora entre formas de exploração ambiental e determinados valores socialmente associados à masculinidade. Domínio, produtividade permanente, força e controle aparecem não apenas como comportamentos individuais, mas como componentes de uma estrutura cultural mais ampla.

Do homem invulnerável ao homem interdependente

Um dos pontos centrais do projeto está justamente na vulnerabilidade. Em vez de compreendê-la como fraqueza, a produção artística explora sua capacidade de abrir outras possibilidades para a construção das identidades masculinas.

Por meio de peças e instalações, o trabalho procura tensionar uma masculinidade organizada historicamente em torno do domínio e deslocá-la em direção a relações baseadas no cuidado, na sensibilidade e no coletivo.

A própria escolha dos procedimentos artísticos acompanha essa reflexão. A pesquisa explora a ideia de marca, impressão ou vestígio em diferentes suportes, transitando entre a gráfica expandida e a escultura. A materialidade deixa, portanto, de funcionar apenas como suporte estético e passa a participar da discussão sobre aquilo que permanece inscrito nos corpos, nas identidades e nas relações sociais.

Masculinidade, produtividade e crise ecológica

Outro aspecto relevante é a aproximação entre a discussão das masculinidades e a vulnerabilidade socioecológica do sistema ocidental contemporâneo.

Ao relacionar masculinidade hegemônica, extrativismo e produtividade, o projeto permite pensar como valores aparentemente pertencentes a campos diferentes podem compartilhar uma mesma lógica: produzir, controlar, explorar e demonstrar força continuamente.

Nesse sentido, questionar a masculinidade também significa questionar modelos sociais que transformam desempenho e produtividade em medidas de valor dos próprios indivíduos.

A arte aparece como espaço privilegiado para produzir esse deslocamento. Em vez de apresentar uma resposta definitiva sobre aquilo que deveria substituir a masculinidade tradicional, o projeto constrói visualmente outros horizontes possíveis.

E talvez esteja aí sua provocação mais interessante: imaginar “outro homem” não significa simplesmente substituir um modelo rígido por outro, mas admitir identidades capazes de reconhecer dependência, fragilidade, cuidado e pertencimento coletivo.

Em uma sociedade que frequentemente ensina homens a esconder suas vulnerabilidades, transformar justamente a vulnerabilidade em matéria artística também se torna uma forma de crítica cultural.

Fonte: Horitzons d’un altre home. Creació artística per a cartografiar la masculinitat des d’una altra perspectiva d’interdependència i cura. Trabalho de Final de Mestrado.

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