Internações por infarto cerebral aumentam 56% no SUS em dez anos, revela estudo

Pesquisa nacional identifica mais de 248 mil hospitalizações, 36 mil mortes e profundas desigualdades entre estados brasileiros. Apesar da redução recente da letalidade, análise não encontrou evidências estatísticas de queda sustentada durante todo o período.

Por Redação Portal Archa

O Brasil registrou 248.146 internações por infarto cerebral e 36.312 mortes hospitalares entre 2015 e 2025, segundo um estudo científico publicado em 6 de outubro de 2026 na revista Brazilian Journal of Implantology and Health Sciences.

A pesquisa revela que o número anual de internações financiadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) aumentou 56,4% em uma década, passando de 18.169 registros, em 2015, para 28.422, em 2025.

O crescimento não foi acompanhado por uma redução estatisticamente significativa da mortalidade hospitalar quando considerado todo o período analisado.

Os resultados também revelam diferenças expressivas entre os estados brasileiros, com variações nas taxas de hospitalização e na proporção de pacientes que morreram durante a internação.

Intitulado Infarto cerebral no SUS: tendências da carga hospitalar e desigualdades territoriais no Brasil, 2015–2025, o artigo é assinado por Mateus de Castro Paiva e outros 19 pesquisadores vinculados ao Centro Universitário Integrado, de Campo Mourão, e à Universidade Cesumar (Unicesumar), de Maringá, ambas no Paraná.

Mais internações, mas sem redução consistente da mortalidade

O infarto cerebral, também conhecido como acidente vascular cerebral isquêmico (AVC isquêmico), ocorre quando uma obstrução interrompe o fluxo sanguíneo em determinada região do cérebro.

A falta de oxigênio pode provocar danos neurológicos permanentes e levar à morte, tornando o atendimento rápido fundamental para reduzir sequelas.

Ao analisar os registros hospitalares do SUS, os pesquisadores identificaram que a taxa anual de internações passou de 8,98 para 13,32 por 100 mil habitantes entre 2015 e 2025.

Isso representa um aumento de 48,4% na taxa populacional de hospitalizações, mesmo após considerar o crescimento da população brasileira.

A tendência estatística estimada foi de crescimento médio de 3,5% ao ano.

A letalidade hospitalar acumulada no período foi de 14,63%. Em outras palavras, aproximadamente 15 mortes foram registradas a cada 100 internações por infarto cerebral.

Embora a proporção de mortes tenha diminuído de 15,01%, em 2015, para 12,40%, em 2025, a análise estatística não confirmou uma tendência sustentada de redução ao longo dos 11 anos.

Os pesquisadores ressaltam que a melhora observada nos anos mais recentes não deve ser confundida com uma transformação consistente em toda a série histórica.

O que os números revelam

IndicadorResultado
Internações entre 2015 e 2025248.146
Mortes durante as internações36.312
Crescimento das internações56,4%
Letalidade hospitalar acumulada14,63%
Internações classificadas como urgência96,8%
Permanência hospitalar média8,48 dias
Valores hospitalares registrados, corrigidos pela inflaçãoR$ 693,5 milhões

Os dados foram extraídos do Sistema de Informações Hospitalares do SUS (SIH/SUS), com informações populacionais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Idosos concentram quase 70% das internações

A idade aparece como um dos fatores mais relevantes para compreender a distribuição das hospitalizações.

Pessoas com 60 anos ou mais responderam por 68,82% das internações e 78,29% das mortes hospitalares registradas no período.

Entre pacientes com 80 anos ou mais, a letalidade alcançou 22,62%, a maior proporção entre as faixas etárias analisadas.

Isso significa que, nesse grupo, aproximadamente 23 em cada 100 internações terminaram em morte.

A pesquisa também identificou diferenças entre homens e mulheres.

Os homens representaram 52,49% das hospitalizações e apresentaram taxa de internação 15,8% superior à feminina.

Entretanto, a letalidade hospitalar foi discretamente maior entre as mulheres: 14,98%, contra 14,32% entre os homens.

Os autores alertam que essa diferença não permite concluir que o sexo, isoladamente, determine o risco de morte, uma vez que outros fatores clínicos e demográficos podem influenciar os resultados.

Desigualdade entre estados chama atenção

Um dos resultados mais relevantes do estudo está na distribuição territorial das internações e mortes hospitalares.

As taxas médias anuais de hospitalização variaram de 0,80 por 100 mil pessoas-ano no Amapá a 38,24 em Roraima.

Os três estados com maiores taxas registradas foram:

  • Roraima: 38,24 por 100 mil pessoas-ano;
  • Espírito Santo: 35,80;
  • Rio Grande do Sul: 27,71.

Na outra extremidade, apareceram Amapá, Paraíba e Amazonas, com taxas de 0,80, 2,16 e 2,49, respectivamente.

As diferenças também foram expressivas na letalidade hospitalar.

No Acre, 30,71% das internações registradas terminaram em morte. Na Paraíba, a proporção foi de 28,70%, enquanto no Rio de Janeiro alcançou 27,12%.

Já no Espírito Santo, a letalidade registrada foi de 7,23%; no Ceará, 7,56%; e em Mato Grosso do Sul, 9,19%.

Essas diferenças, entretanto, não podem ser interpretadas automaticamente como indicadores de maior ocorrência da doença ou de melhor ou pior qualidade dos serviços estaduais.

Os pesquisadores explicam que fatores como disponibilidade de hospitais, acesso a exames, estrutura etária da população, qualidade dos registros e classificação dos diagnósticos podem influenciar os resultados.

Uma taxa menor de internações não significa necessariamente que a população esteja mais protegida contra o AVC. Ela também pode refletir dificuldades de acesso ao diagnóstico e à assistência hospitalar.

Pandemia alterou a trajetória das hospitalizações

A série histórica também revela mudanças durante a pandemia de COVID-19.

Depois de crescer até 2019, a taxa de internações apresentou redução em 2020 e estabilidade em 2021.

A partir de 2022, voltou a aumentar, alcançando o maior valor da série em 2025.

A letalidade hospitalar, por sua vez, atingiu 16,30% em 2021, seu ponto mais elevado, antes de recuar nos anos seguintes.

Os pesquisadores consideram que a reorganização dos serviços de saúde, as dificuldades de deslocamento e a redução da procura por atendimento durante a pandemia podem ter contribuído para essas alterações.

Entretanto, o estudo não permite estabelecer uma relação direta de causa e efeito entre a pandemia e as mudanças observadas.

Quase R$ 700 milhões registrados em internações

O levantamento também analisou os valores financeiros associados às hospitalizações por infarto cerebral.

Entre 2015 e 2025, o SUS registrou R$ 548,46 milhões em valores nominais nas Autorizações de Internação Hospitalar.

Após correção pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), para valores de dezembro de 2025, o montante alcançou R$ 693,49 milhões.

O valor médio corrigido registrado foi de R$ 2.794,70 por internação.

Esse montante, contudo, não corresponde ao custo total da doença para a sociedade.

Os registros hospitalares não contemplam integralmente despesas com reabilitação prolongada, medicamentos após a alta, acompanhamento ambulatorial, adaptações domiciliares, perda de produtividade e cuidados familiares.

Consequentemente, o impacto econômico e social do AVC isquêmico ultrapassa os valores registrados nas internações financiadas pelo SUS.

Aumento das internações significa que mais brasileiros estão sofrendo AVC?

Não necessariamente.

Essa é uma distinção importante destacada pelos próprios autores.

O estudo analisou internações registradas sob o código I63 da Classificação Internacional de Doenças, correspondente ao infarto cerebral.

Como a unidade de análise foi a autorização de internação hospitalar, uma mesma pessoa pode ter sido contabilizada mais de uma vez em situações de reinternação.

Além disso, o aumento dos registros pode refletir não apenas mudanças na ocorrência da doença, mas também ampliação do acesso hospitalar, maior disponibilidade de exames e melhorias na identificação diagnóstica.

A pesquisa não inclui toda a assistência hospitalar privada nem os casos registrados sob outros códigos diagnósticos.

Portanto, os números demonstram o crescimento da carga hospitalar registrada pelo SUS, mas não permitem afirmar que a incidência de AVC isquêmico na população brasileira tenha aumentado na mesma proporção.

Prevenção e acesso rápido ao atendimento são desafios centrais

Os resultados reforçam a importância de políticas públicas voltadas à prevenção cardiovascular e à organização da assistência especializada.

Hipertensão arterial, diabetes, fibrilação atrial, tabagismo, obesidade e sedentarismo estão entre os fatores associados ao desenvolvimento do AVC isquêmico.

O reconhecimento precoce dos sintomas e o atendimento imediato também são decisivos para reduzir danos cerebrais.

Entre os sinais de alerta estão fraqueza súbita em um lado do corpo, alteração da fala, assimetria facial e perda repentina de equilíbrio ou visão.

Diante desses sintomas, a orientação é procurar atendimento de emergência imediatamente, inclusive pelo SAMU, no número 192.

A pesquisa destaca a necessidade de ampliar o acesso a exames de neuroimagem, unidades especializadas e tratamentos capazes de restabelecer o fluxo sanguíneo cerebral em pacientes elegíveis.

Também aponta a importância de integrar a assistência de urgência aos serviços de reabilitação.

O desafio do SUS diante do envelhecimento brasileiro

O crescimento das internações por infarto cerebral representa um desafio para o planejamento da saúde pública brasileira.

A concentração de hospitalizações entre idosos, as diferenças territoriais e a ausência de redução estatisticamente consistente da letalidade no período completo indicam a necessidade de aperfeiçoar tanto a prevenção quanto a assistência.

O estudo não demonstra que os serviços de saúde tenham piorado, tampouco permite atribuir as diferenças entre estados exclusivamente à qualidade do atendimento.

Entretanto, revela que o sistema público passou a registrar uma demanda hospitalar crescente por uma condição grave, dependente de diagnóstico e tratamento rápidos.

Mais do que ampliar a capacidade de internação, o desafio é garantir que o local de residência não determine as oportunidades de diagnóstico, tratamento e recuperação de quem sofre um infarto cerebral.


Fonte e referência científica

PAIVA, Mateus de Castro et al. Infarto cerebral no SUS: tendências da carga hospitalar e desigualdades territoriais no Brasil, 2015–2025. Brazilian Journal of Implantology and Health Sciences, v. 8, n. 10, p. 463–491, 2026.

Publicado em: 6 de outubro de 2026.

DOI: https://doi.org/10.36557/2674-8169.2026v8n10p463-491

Instituições: Centro Universitário Integrado e Universidade Cesumar (Unicesumar), Paraná.

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