Estudo publicado em e-book do Observatório de la Economía Latino Americano sobre a Rede Camões revela que a transformação mais significativa da escrita escolar não está na tecnologia, mas na possibilidade de estudantes deixarem de produzir apenas para a avaliação e passarem a participar da circulação pública do conhecimento
A escola brasileira passou décadas aperfeiçoando maneiras de avaliar aquilo que os estudantes sabem. Criou provas, exercícios, redações, indicadores de desempenho e sistemas de acompanhamento da aprendizagem. Mas uma pergunta permanece relativamente distante desse esforço: em que momento o estudante deixa de ser alguém que responde às perguntas da escola e passa a ser reconhecido como alguém que também tem perguntas a fazer ao mundo?
A questão atravessa uma pesquisa desenvolvida na Universidade Estadual Paulista (Unesp), que analisou experiências de produção jornalística, literária e multimodal realizadas em escolas públicas estaduais de Rio Claro, no interior paulista, entre 2020 e 2024.
O trabalho, desenvolvido pelo pesquisador Antonio Flavio Archangelo Junior, deu origem ao capítulo Quando a escola devolve a palavra: autoria, cuidado de si e circulação discursiva na Rede Camões, publicado em 2026 no livro Estudos sobre o educar na contemporaneidade.
A investigação examina uma contradição presente no cotidiano escolar: embora os estudantes sejam constantemente convidados a escrever, raramente a produção textual ultrapassa o circuito formado pela atividade proposta, pela correção do professor e pela atribuição de uma nota.
Nesse modelo, a escrita tende a funcionar como demonstração de aprendizagem. O estudante produz porque a escola solicita; o professor lê porque precisa avaliar; e o texto frequentemente encerra sua existência pedagógica depois da correção.
O estudo questiona o que acontece quando esse percurso é interrompido e a produção escolar passa a alcançar leitores, entrevistados, ouvintes e públicos que não participam diretamente da relação entre professor e aluno.
A resposta encontrada não está simplesmente na ampliação da audiência, mas na possibilidade de reorganizar as relações de autoria, interlocução e responsabilidade dentro da escola.
Quando escrever deixa de ser apenas uma obrigação escolar
A experiência investigada nasceu em março de 2020, quando a pandemia de Covid-19 desorganizou as rotinas educacionais e exigiu a reconstrução das formas de comunicação entre professores e estudantes.
Desse contexto surgiram práticas posteriormente sistematizadas como Método Camões e articuladas por meio da Rede Camões de Jornais Escolares.
O projeto reuniu atividades de produção jornalística, entrevistas, editoriais, relatos autobiográficos, poemas, podcasts e materiais audiovisuais. Os estudantes passaram a experimentar diferentes maneiras de produzir e colocar conteúdos em circulação.
Um dos episódios examinados pela pesquisa ocorreu em novembro de 2022, quando uma produção estudantil foi publicada no jornal Diário do Rio Claro.
À primeira vista, o acontecimento poderia ser interpretado apenas como uma atividade escolar bem-sucedida. Entretanto, sua importância científica está em outro aspecto.
Ao alcançar um veículo de comunicação externo, o texto deixou de existir exclusivamente para um leitor previamente conhecido — o professor — e passou a integrar um circuito público de comunicação.
Essa mudança altera as condições da escrita. O estudante precisa considerar que suas afirmações poderão ser lidas por pessoas que desconhecem a atividade escolar que originou o texto. O título, a seleção de informações, a linguagem, a revisão e a responsabilidade pelo conteúdo deixam de atender apenas aos critérios de uma avaliação.
A pesquisa identifica nesse deslocamento uma possibilidade concreta de exercício da autoria.
Isso não significa que o estudante tenha se tornado automaticamente autônomo ou emancipado. Significa que passou a ocupar, naquela situação, uma posição discursiva diferente daquela tradicionalmente reservada a quem apenas responde a uma atividade.
Ter voz não é simplesmente poder falar
A discussão desenvolvida no capítulo ultrapassa a ideia de que oferecer espaço para o estudante se expressar seja suficiente para transformar as relações pedagógicas.
A escola nunca foi um ambiente em que os alunos permanecessem literalmente sem voz. Eles conversam, questionam, contestam, narram experiências e constroem interpretações sobre o mundo.
O problema investigado é outro: quais dessas manifestações são reconhecidas como conhecimento legítimo e em quais condições podem circular para além dos limites estabelecidos pela própria instituição escolar?
Essa distinção aproxima a pesquisa dos debates sobre linguagem, poder e produção de subjetividades.
Na perspectiva desenvolvida pelo estudo, a autoria não corresponde apenas à capacidade individual de escrever corretamente ou de expressar uma opinião. Ela envolve condições sociais e institucionais que permitem a alguém produzir um discurso, encontrar interlocutores e assumir responsabilidades sobre aquilo que coloca em circulação.
A questão deixa de ser exclusivamente como ensinar o estudante a escrever e passa a incluir quem decide o que merece ser escrito, quais experiências podem se tornar conhecimento e quem está autorizado a participar dessa produção.
Esse deslocamento também alcança a função do professor.
Em vez de desaparecer do processo, a mediação docente assume outras responsabilidades: orientar a pesquisa, ampliar repertórios, discutir fontes, acompanhar a revisão, proteger os estudantes e estabelecer condições éticas para a publicação.
A diferença está em não ocupar necessariamente o lugar de único destinatário e juiz final de tudo aquilo que o aluno produz.
A tecnologia pode modernizar a escola sem modificar seu funcionamento
Outro resultado importante da investigação questiona a associação automática entre inovação educacional e incorporação de tecnologias digitais.
O uso de computadores, celulares, plataformas, podcasts e vídeos não representa, por si só, uma transformação das práticas pedagógicas.
Uma aula expositiva pode ser reproduzida integralmente em vídeo. Um podcast pode funcionar apenas como uma apresentação oral gravada. Um jornal digital pode continuar submetido a uma organização na qual o professor escolhe todos os temas, define os conteúdos e controla integralmente a publicação.
Nessas situações, a tecnologia altera o suporte, mas pode preservar as mesmas relações de transmissão e avaliação.
A pesquisa sustenta que a contribuição pedagógica depende das decisões efetivamente compartilhadas no processo: quem propõe a pauta, quem formula perguntas, quem seleciona informações, quem revisa, quem publica e quem responde pelas consequências da circulação.
A Rede Camões registrou, entre 2021 e 2024, mais de cinco mil publicações em diferentes formatos. Entretanto, o estudo evita transformar os indicadores de circulação em medidas de aprendizagem.
Visualizações, comentários e assinaturas demonstram alcance, não comprovam, isoladamente, autonomia, pensamento crítico ou transformação subjetiva.
O achado mais consistente está na reorganização das condições em que a palavra produzida na escola pode encontrar outros interlocutores.
Quando o estudante se torna objeto da própria escrita
A pesquisa também examinou produções autobiográficas nas quais estudantes escreveram sobre experiências pessoais, dificuldades, relações com a leitura e percepções sobre suas próprias trajetórias.
Esses documentos introduziram uma segunda dimensão da autoria: a possibilidade de utilizar a linguagem não apenas para descrever o mundo, mas também para refletir sobre a própria experiência.
É nesse ponto que o estudo estabelece uma aproximação com o conceito de cuidado de si, desenvolvido pelo filósofo Michel Foucault.
A investigação não confunde cuidado de si com autoestima, bem-estar psicológico ou efeitos terapêuticos da escrita.
O interesse está em compreender se determinadas práticas discursivas permitem ao estudante retomar acontecimentos, organizar experiências, examinar aquilo que pensa e reconhecer-se — ou estranhar-se — naquilo que escreveu.
Uma carta, um relato ou uma autobiografia podem criar ocasiões para esse exercício. Entretanto, a pesquisa ressalta que nem toda produção em primeira pessoa constitui uma prática de cuidado de si.
Também identifica uma tensão importante: quando experiências pessoais passam a circular publicamente, surgem riscos relacionados à exposição, à privacidade e à proteção de dados.
Assim, uma pedagogia comprometida com a autoria não pode transformar a liberdade de expressão em obrigação de revelar aspectos íntimos da própria vida.
A disputa sobre quem pode produzir conhecimento
O estudo amplia a discussão ao aproximar a autoria escolar dos debates sobre colonialidade e legitimidade dos conhecimentos.
A escola desempenha uma função importante ao garantir o acesso dos estudantes aos repertórios linguísticos socialmente valorizados. Entretanto, essa responsabilidade não exige que as experiências culturais e as formas de expressão que os alunos já possuem sejam tratadas como manifestações de inferioridade intelectual.
A pesquisa propõe observar como determinadas práticas pedagógicas podem abrir espaço para diferentes linguagens, experiências e formas de participação, sem abandonar o ensino sistemático da língua.
Nesse sentido, entrevistas, editoriais, poemas, músicas e podcasts não são apresentados como substitutos do conhecimento escolar, mas como possibilidades de ampliar as relações entre linguagem, experiência e produção de sentidos.
A investigação reconhece, contudo, que a experiência da Rede Camões não oferece evidências suficientes para afirmar que tenha superado desigualdades estruturais ou transformado os regimes de poder presentes na escola.
Sua contribuição é mais delimitada: documentar situações nas quais estudantes puderam ocupar posições autorais e comunicativas distintas das previstas por uma organização escolar centrada exclusivamente na transmissão e na avaliação.
Uma pergunta para a educação contemporânea
O capítulo integra o livro Estudos sobre o educar na contemporaneidade, organizado por Amanda da Silva e publicado pela Editora Observatório de la Economía Latino Americano.
A investigação deriva da tese de doutorado de Antonio Archangelo na Unesp e utiliza uma abordagem qualitativa de autoetnografia crítica, na qual o pesquisador analisa uma experiência pedagógica da qual participou diretamente.
Por essa razão, o trabalho não apresenta o Método Camões como uma solução universal para os problemas da educação brasileira. Seus resultados estão vinculados às condições históricas, institucionais e sociais da experiência estudada.
Ainda assim, a pesquisa recoloca uma questão relevante para o debate educacional.
A escola contemporânea dispõe de instrumentos cada vez mais sofisticados para verificar o que os estudantes aprenderam. Entretanto, avaliar a capacidade de responder corretamente não esgota as possibilidades de formação intelectual.
Produzir perguntas, selecionar temas, confrontar informações, organizar argumentos e participar de situações reais de comunicação também são práticas que exigem aprendizagem, mediação e responsabilidade.
O estudo sugere que a autoria estudantil pode ser compreendida como uma dimensão dessas práticas, desde que não seja confundida com a simples publicação de conteúdos.
A questão, portanto, não é abandonar a escola que ensina a responder. É perguntar se ela também está criando condições para que seus estudantes tenham algo a dizer — e encontrem quem os escute.
PUBLICAÇÃO CIENTÍFICA
Título: Quando a escola devolve a palavra: autoria, cuidado de si e circulação discursiva na Rede Camões
Autor: Antonio Flavio Archangelo Junior
Livro: Estudos sobre o educar na contemporaneidade
Organização: Amanda da Silva
Editora: Observatório de la Economía Latino Americano
Ano: 2026
Páginas: 146–162
DOI: 10.55905/edobs.978-65-83190-43-7_8
