Pesquisa com 320 estudantes no Ceará revela que educação fiscal pode fortalecer a cidadania e o controle dos gastos públicos

Estudo da Universidade Federal do Cariri, publicado em novembro de 2026, registra 77,76% de acertos em conhecimentos tributários e mostra que quase 90% dos estudantes avaliaram positivamente uma iniciativa de educação fiscal nas escolas públicas.

Por Redação Portal Archa

Compreender para onde vai o dinheiro dos impostos, como são financiados os serviços públicos e de que maneira a população pode fiscalizar os gastos governamentais são conhecimentos essenciais para o exercício da cidadania. Uma pesquisa realizada com 320 estudantes de escolas públicas do Ceará mostra que atividades educativas sobre tributação podem contribuir para aproximar os jovens dessas questões.

O estudo, intitulado Compreendendo a Educação Fiscal e a Gestão Pública: Investigação em escolas públicas do Estado do Ceará, foi publicado em 2 de novembro de 2026, na Revista Brasileira de Ensino e Aprendizagem (REBENA).

A investigação foi desenvolvida por Maria Luiza Botelho Araújo e Milton Jarbas Rodrigues Chagas, vinculados à Universidade Federal do Cariri (UFCA), a partir de atividades de extensão universitária realizadas entre março e outubro de 2025.

Os resultados apontam que os participantes alcançaram média de 77,76% de acertos em conhecimentos fiscais básicos e 83,13% na aplicação prática desses conhecimentos. Além disso, a média de concordância com a afirmação de que o projeto melhorou a percepção sobre tributos, direitos e deveres chegou a 89,62%.

Pesquisa envolveu seis municípios cearenses

O levantamento foi desenvolvido por meio do projeto Educação fiscal nas escolas: um exercício de cidadania, vinculado ao programa UFCA Itinerante, coordenado pela Pró-Reitoria de Extensão da universidade.

Participaram estudantes do primeiro ao terceiro ano do Ensino Médio de seis escolas públicas, localizadas nos municípios de Granjeiro, Campos Sales, Tarrafas, Salitre, Caririaçu e Crato.

As atividades envolveram 320 alunos e utilizaram estratégias como rodas de conversa, materiais educativos, questionários e jogos de perguntas e respostas.

Uma das principais metodologias foi o Talk Show Fiscal, dinâmica inspirada em programas televisivos de perguntas e respostas, na qual os estudantes participavam de desafios relacionados à tributação, à cidadania e à utilização dos recursos públicos.

A proposta buscou tornar assuntos considerados complexos mais próximos das experiências cotidianas dos jovens.

Quase 90% avaliaram positivamente a iniciativa

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Os pesquisadores organizaram os resultados em quatro dimensões: conhecimento fiscal básico, cidadania e gasto público, avaliação da ação extensionista e aplicação prática do conhecimento.

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Indicador analisadoResultado médio
Acertos sobre conceitos tributários77,76%
Concordância sobre a importância dos tributos para cidadania e gasto público81,28%
Avaliação positiva da contribuição do projeto89,62%
Acertos em situações práticas83,13%

O percentual de 89,62% corresponde à média dos resultados municipais de concordância com a afirmação de que o projeto melhorou a percepção dos participantes sobre tributos, direitos e deveres.

Esse resultado indica uma recepção favorável das atividades, embora não represente, isoladamente, uma medição da evolução do conhecimento antes e depois da intervenção.

Campos Sales alcançou 100% de acertos em atividade prática

Os resultados também revelaram diferenças importantes entre os municípios.

Na avaliação dos conhecimentos tributários básicos, Campos Sales registrou 85,59% de acertos, seguido por Tarrafas, com 85,09%. Caririaçu apresentou o menor percentual, com 66,33%.

Na dimensão de aplicação prática, Campos Sales alcançou 100% de acertos entre as respostas válidas, enquanto Salitre registrou 70,83%.

Essa avaliação envolveu situações relacionadas à prestação de serviços públicos, à tributação e à importância dos documentos fiscais para a transparência.

Segundo os pesquisadores, as diferenças observadas reforçam a necessidade de adaptar as estratégias pedagógicas às características de cada escola e município.

A investigação também examinou indicadores socioeconômicos, como o Produto Interno Bruto (PIB) per capita e o Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM), mas não encontrou evidências suficientes para explicar as diferenças de desempenho apenas por essas variáveis.

Educação fiscal vai além de ensinar a pagar impostos

Um dos principais argumentos da pesquisa é que a educação fiscal não deve se limitar à explicação sobre obrigações tributárias.

Os autores defendem sua importância para a compreensão da relação entre arrecadação, políticas públicas, direitos sociais e participação democrática.

Nesse sentido, conhecer o funcionamento dos tributos pode ajudar os estudantes a compreender como são financiados serviços como saúde, educação, infraestrutura e assistência social.

Também pode estimular o interesse pelo acompanhamento dos orçamentos públicos e pela fiscalização da aplicação dos recursos governamentais.

O estudo relaciona essa perspectiva ao Programa Nacional de Educação Fiscal e ao Programa de Educação Fiscal do Estado do Ceará, instituído pela Lei Estadual nº 16.697/2018.

Resultados são promissores, mas possuem limitações

A pesquisa adotou abordagem qualitativa, com apoio de estatística descritiva, utilizando questionários aplicados durante as atividades de extensão universitária.

Os autores reconhecem limitações relacionadas ao número de escolas participantes, à seleção das instituições e à abrangência territorial da investigação.

Como o estudo envolveu uma escola por município, seus resultados não podem ser generalizados para todos os estudantes do Ceará ou do Brasil.

Também não foi realizado acompanhamento longitudinal que permitisse verificar a permanência dos conhecimentos adquiridos ou estabelecer relações causais entre as atividades e os resultados apresentados.

Ainda assim, a investigação oferece evidências sobre o potencial de iniciativas de extensão universitária para aproximar a educação escolar de temas relacionados à administração pública.

Conhecer os impostos é também compreender os direitos

Ao relacionar tributação, cidadania e controle social, a pesquisa amplia o debate sobre o papel da escola na formação política e social dos estudantes.

Os resultados sugerem que metodologias participativas podem favorecer o interesse por temas fiscais e ajudar os jovens a compreender a relação entre os recursos arrecadados pelo Estado e os serviços oferecidos à população.

A principal contribuição do estudo está em demonstrar que a educação fiscal pode ser trabalhada de maneira acessível e contextualizada na Educação Básica.

Mais do que ensinar o que são impostos, a proposta é formar cidadãos capazes de questionar como o dinheiro público é utilizado e de participar das decisões que afetam suas comunidades.


Publicação científica

Título: Compreendendo a Educação Fiscal e a Gestão Pública: Investigação em escolas públicas do Estado do Ceará

Autores: Maria Luiza Botelho Araújo e Milton Jarbas Rodrigues Chagas.

Instituição: Universidade Federal do Cariri (UFCA).

Periódico: Revista Brasileira de Ensino e Aprendizagem (REBENA).

Volume: 18, páginas 86–104.

Publicação: 2 de novembro de 2026.

ISSN: 2764-1368.

Fonte: ARAÚJO, Maria Luiza Botelho; CHAGAS, Milton Jarbas Rodrigues. Compreendendo a Educação Fiscal e a Gestão Pública: Investigação em escolas públicas do Estado do Ceará. Revista Brasileira de Ensino e Aprendizagem, v. 18, p. 86–104, 2026.

Revista: https://rebena.emnuvens.com.br/revista/index

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