Ouvir aulas no caminho para a escola, produzir conteúdos em áudio como atividade avaliativa ou transformar estudantes em comunicadores do próprio aprendizado já é realidade em muitas salas de aula brasileiras. Um estudo recente publicado na Revista Educação Contemporânea mostra que o podcast tem se consolidado como uma poderosa ferramenta pedagógica, capaz de ampliar tempos e espaços de aprendizagem — embora ainda esbarre em limites estruturais da educação pública.
Assinado por Célia Schneider, mestranda em Tecnologias Emergentes em Educação pela Must University, o artigo analisa o uso do podcast como recurso didático no ensino básico e superior, destacando seu potencial para promover escuta ativa, letramento digital e protagonismo discente. A pesquisa se baseia em uma revisão bibliográfica qualitativa, com análise de produções acadêmicas indexadas em bases como SciELO, Google Acadêmico e repositórios científicos.
Segundo o estudo, o podcast se diferencia de outras mídias educacionais por combinar acessibilidade, mobilidade e flexibilidade. Por ser consumido sob demanda, o conteúdo em áudio permite que estudantes aprendam no próprio ritmo, fora do tempo rígido da sala de aula, o que favorece metodologias ativas como a sala de aula invertida. Nesses modelos, o aluno acessa o conteúdo antes do encontro presencial, liberando o espaço escolar para debate, problematização e produção coletiva de conhecimento.
A autora destaca que o uso pedagógico do podcast tem apresentado resultados especialmente relevantes em áreas como línguas e ciências. No ensino de idiomas, por exemplo, o formato permite contato com diferentes vozes, sotaques e contextos comunicativos, enquanto, nas ciências, funciona como recurso complementar para aprofundar temas que não cabem na carga horária regular. Além disso, quando os próprios estudantes produzem podcasts, desenvolvem habilidades de pesquisa, argumentação, autoria e trabalho colaborativo.
No entanto, o estudo alerta que o avanço dessas práticas ocorre, em grande parte, à base do esforço individual de professores. A ausência de infraestrutura adequada, como acesso à internet de qualidade, equipamentos para gravação e edição, além da falta de formação continuada, limita a adoção do podcast como política pedagógica estruturada. Em muitas escolas, especialmente públicas, o uso da tecnologia ainda depende do improviso e do uso de recursos pessoais dos docentes.
Outro obstáculo identificado é a sobrecarga de trabalho docente. Planejar, roteirizar, gravar e editar episódios exige tempo e competências técnicas que nem sempre são reconhecidas institucionalmente. Sem incentivos, apoio técnico ou diretrizes pedagógicas claras, o podcast corre o risco de ser tratado como moda passageira, e não como ferramenta estratégica de inovação educacional.
A pesquisa conclui que o podcast tem alto potencial para democratizar o acesso ao conhecimento e tornar o currículo mais significativo, mas sua consolidação depende de investimentos públicos, políticas de inclusão digital e integração efetiva ao projeto pedagógico das escolas. Em um cenário de crescente digitalização da vida social, o estudo reforça que ignorar esse debate é aprofundar desigualdades — enquanto incorporá-lo de forma crítica pode transformar a escola em espaço mais vivo, conectado e autoral.
Referência
SCHNEIDER, Célia. O uso do podcast na educação: potencialidades pedagógicas e desafios na prática docente. Revista Educação Contemporânea, v. 3, n. 1, p. 183–191, 2026. DOI: 10.5281/zenodo.18615441.
